Godzilla Minus Zero | Crítica sem spoilers

Para quem nunca foi muito de assistir aos filmes do Godzilla e nunca tinha visto um nos cinemas, colocar Godzilla Minus Zero para rodar traz uma sensação curiosa. Claro que a gente já está ligado na crítica ao terror nuclear que construiu a franquia, mas a vibe ao assistir a este aqui parecia quase uma simulação de como seria ver o primeirão lá em 1954 nas telonas pela primeira vez. O filme tem uma dualidade interessante, pois ao mesmo tempo em que a escala visual impressiona, ele carrega uma pegada muito mais autoral, longe do molde hollywoodiano industrializado, parecendo mesmo a visão crua de como o cinema japonês gosta de fazer as coisas.

A direção de Takashi Yamazaki dá o tom certo em todo o projeto. O diretor conduz muito bem o filme como um todo, com ótimos enquadramentos e tomadas limpas onde a gente nunca se sente perdido em cena. E um detalhe que faz toda a diferença é que o filme não tem medo de mostrar a ação à luz do dia. Enquanto produções modernas adoram esconder a criatura na penumbra ou na chuva para maquiar defeitos, aqui o monstro, no caso o Ghidorah, bota para quebrar destruindo uma cidade inteira de dia, e o CGI é tão bem integrado que o resultado enche os olhos. O terror e a tensão funcionam justamente por essa crueza explícita, abrindo espaço para o Godzilla aparecer depois e virar aquela rinha de monstro gigante que todo mundo gosta.

Mas o que realmente eleva o nível da obra é o subtexto. O filme traz aquela discussão clássica sobre como nós nos encaramos diante de casos extremos, como o estado do ambiente ao redor acaba refletindo diretamente em quem nos tornamos por dentro, além de como reagiríamos, como trataríamos uns aos outros e quais seriam as nossas prioridades quando o mundo desaba. Aliada a isso, é claro, está a forte crítica histórica às bombas atômicas jogadas pelos Estados Unidos no Japão no fim da Segunda Guerra, algo que, não por acaso, já ecoava metaforicamente como a representação do próprio poder atômico desde o primeiro filme da franquia. O que não deixa de ser um reflexo irônico e doloroso, afinal, após um país despejar duas bombas atômicas em outro e nunca receber absolutamente nenhum tipo de punição das instituições internacionais, a ferida histórica continua aberta, refletindo na forma como os personagens americanos em cena acabam parecendo um tanto estereotipados e genéricos.

Ainda bem que o drama humano não depende disso para funcionar. Os atores e os núcleos estão muito bem encaixados em seus papéis, trazendo personagens interessantes que seguram a narrativa com firmeza, inclusive com figuras que já carregam o peso emocional de produções anteriores. Se há um leve escorregão, são pequenos deslizes pontuais na atuação de algumas crianças em momentos dramáticos mais exigidos, mas é um detalhe rápido que não compromete em nada a imersão.

No fim das contas, Godzilla Minus Zero é um filmaço excelente. Tem seus pequenos tropeços pontuais, mas entrega uma mistura de espetáculo visual com peso histórico que coroa a franquia com maestria. E quer saber? Para quem é saudoso fã de Pacific Rim e vive com saudades de ver a pancadaria rolar solta, é um abraço assistir a dois kaijus saindo na porrada e destruindo uma cidadezinha praticamente vazia ao melhor estilo tokusatsu.







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