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O Outro Lado das Redes | Crítica sem Spoilers

há 2 horas
3 min de leitura

Em 2010, A Rede Social transformou a criação do Facebook em um dos dramas mais fascinantes do cinema contemporâneo. Com roteiro afiado de Aaron Sorkin e direção precisa de David Fincher, o filme foi além da história de uma empresa de tecnologia para explorar ambição, ego, poder e as contradições de um mundo cada vez mais conectado.


Dezesseis anos depois, Sorkin retorna a esse universo em O Outro Lado das Redes, desta vez também na direção. A trama acompanha Frances Haugen, ex-funcionária do Facebook que decide expor informações internas da empresa com a ajuda do jornalista Jeff Horwitz. A investigação revela como interesses corporativos podem se sobrepor à responsabilidade social, alimentando a desinformação, a polarização e a busca por engajamento a qualquer custo.



O tema continua extremamente relevante, mas a sequência esbarra em uma questão fundamental: Sorkin demonstra novamente sua habilidade como roteirista, porém não alcança a força visual que Fincher trouxe ao original. Os diálogos permanecem afiados, e a investigação é conduzida de maneira acessível, mesmo ao abordar questões complexas. Falta, entretanto, transformar essas informações em uma experiência cinematográfica mais envolvente.


Em A Rede Social, Fincher encontrava tensão até nas conversas mais banais. Os enquadramentos precisos, o ritmo da montagem e a atmosfera fria revelavam as disputas de poder por trás dos diálogos. Já em O Outro Lado das Redes, a direção é mais convencional, com cenas que se aproximam da linguagem de um drama televisivo. O roteiro tem bons argumentos, mas nem sempre encontra imagens à altura deles.



No elenco, Jeremy Strong, de Succession, interpreta Mark Zuckerberg de maneira contida, calculista e deliberadamente desconfortável. O ator oferece uma leitura própria do empresário, agora consolidado como uma das figuras mais poderosas da tecnologia, mas o roteiro frequentemente o reduz ao símbolo de uma empresa que precisa responder por suas decisões.


A comparação com Jesse Eisenberg é inevitável. O ator recusou o convite para retornar, apesar da admiração por Sorkin, por não querer continuar associado à imagem de Zuckerberg. Sua ausência pesa porque, no original, Eisenberg construiu um personagem contraditório, movido por inteligência, ressentimento e necessidade de reconhecimento. Strong apresenta outra abordagem, mas não encontra o mesmo espaço para explorar as ambiguidades que tornaram aquela interpretação tão interessante.



Mikey Madison, como Frances Haugen, e Jeremy Allen White, como Jeff Horwitz, sustentam boa parte da investigação. Madison transmite a inquietação de alguém que precisa decidir até onde está disposta a ir para expor uma empresa na qual trabalhou, enquanto White confere naturalidade e melancolia ao jornalista que transforma as informações recebidas em uma apuração consistente. A dinâmica entre os dois humaniza uma narrativa carregada de discussões corporativas. Ainda assim, Frances merecia maior profundidade emocional, e Horwitz acaba definido principalmente por sua função na investigação.



O maior mérito de O Outro Lado das Redes está na relevância do assunto. Os efeitos dos algoritmos, a disseminação de discursos de ódio e a influência das plataformas sobre o debate público continuam merecendo atenção. O filme também ressalta a importância do jornalismo investigativo e daqueles que arriscam expor informações que empresas poderosas preferem manter em segredo.


A dificuldade está em transformar fatos já conhecidos em uma experiência que acrescente algo ao debate. A Rede Social chegou quando a história do Facebook ainda estava em construção e identificou questões que se tornariam cada vez mais importantes. A continuação aborda as consequências desse processo, mas nem sempre apresenta uma perspectiva nova ou uma construção dramática que justifique sua existência para além da relevância do tema. Em alguns momentos, parece confiar demais na gravidade dos acontecimentos, como se a indignação provocada pelos fatos fosse suficiente para gerar tensão.



No fim, O Outro Lado das Redes é um drama jornalístico competente, com roteiro inteligente e boas atuações, mas que não alcança a força de seu antecessor. Sorkin continua dominando os diálogos e a construção de conflitos, porém sua direção não encontra o mesmo equilíbrio entre narrativa, atmosfera e linguagem visual. A questão não é exigir que a continuação repita a fórmula anterior, mas reconhecer que, desta vez, as boas ideias não encontram uma realização cinematográfica igualmente poderosa.


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