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O Bosque Selvagem | Crítica sem spoilers

há 12 minutos
4 min de leitura

Existem filmes que você termina de assistir e simplesmente segue a vida. E existem aqueles que fazem você ficar alguns minutos olhando para os créditos, tentando entender como tanta coisa bonita coube dentro de duas horas. O Bosque Selvagem (Wildwood) pertence, sem a menor dúvida, ao segundo grupo. A nova produção da LAIKA, estúdio responsável por Coraline e o Mundo Secreto e Kubo e as Cordas Mágicas, é uma daquelas experiências que me fazem lembrar por que gosto tanto de cinema.


É fantasia, aventura, um pouquinho de terror e uma boa dose de sofrimento emocional, porque aparentemente o estúdio tem uma cláusula contratual que o impede de produzir uma animação sem mexer com o psicológico do público. E quer saber? Ainda bem.


Dirigido por Travis Knight e baseado na obra de Colin Meloy, o longa acompanha Prue McKeel, uma garota de 13 anos que vê seu irmão mais novo, Mac, ser sequestrado por um bando de corvos. Sim, corvos. Como se não bastasse a preocupação normal de tomar conta de uma criança, agora precisamos acrescentar aves criminosas à lista de perigos da vida. Determinada a recuperar o irmão, Prue acaba entrando em uma floresta misteriosa ao lado de Curtis, seu amigo que, convenhamos, não fazia a menor ideia da encrenca em que estava se metendo.


O que começa como uma missão de resgate rapidamente se transforma em uma aventura envolvendo animais falantes, conflitos políticos, criaturas fantásticas e segredos familiares. É praticamente uma campanha de RPG que saiu completamente do controle.


E já que mencionei Curtis, preciso falar: Que personagem maravilhoso! Que construção! Enquanto Prue está desesperada tentando salvar o irmão, ele parece viver em outra vibe, numa mistura de fascínio, pânico e entusiasmo por ter sido transportado para algo muito parecido com "Jogador Nº 1". Curtis representa perfeitamente aquele amigo que você chama para uma missão simples e, quando percebe, já está envolvido em uma guerra que pode decidir o destino de uma civilização inteira. O contraste entre os dois funciona muito bem.


Prue é impulsiva, determinada e carrega uma responsabilidade gigantesca; Curtis está descobrindo a própria coragem enquanto tenta sobreviver àquela confusão. As situações envolvendo os habitantes da floresta também rendem momentos deliciosos. Em determinada passagem, Prue se depara com humanos e animais falantes convivendo normalmente em um ambiente movimentado. E eu só conseguia pensar que, naquele lugar, até uma ida ao atendimento público deve exigir acompanhamento psicológico.



Mas é quando olhamos para o trabalho visual que O Bosque Selvagem simplesmente deixa qualquer resistência pelo caminho. A técnica de stop-motion utilizada pela LAIKA atinge um nível de detalhamento absurdo. Cada árvore, cada textura, cada expressão dos personagens parece ter recebido uma atenção quase obsessiva. E estamos falando de uma produção em que praticamente tudo foi construído e movimentado manualmente, quadro por quadro. Existe uma beleza particular nisso. Em um período em que tantas animações procuram superfícies perfeitamente polidas, a LAIKA continua apostando nas pequenas imperfeições que tornam seus mundos tão especiais.


A sequência envolvendo o Corujão Rei e o voo com a General é um excelente exemplo da grandiosidade da dimensão que o filme consegue nos mostrar. É o tipo de espetáculo que me fez pensar na quantidade de trabalho necessária para produzir apenas alguns segundos de animação. Eu provavelmente perderia a paciência tentando montar uma estante e os caras construíram uma floresta inteira.


Outro aspecto que gostei muito foi a maneira como Travis Knight trabalha o amadurecimento dos personagens sem virar um coach motivacional de Instagram. Prue não é uma protagonista perfeita, e isso faz toda a diferença. Ela erra, toma decisões precipitadas, insiste em resolver tudo sozinha e precisa descobrir que coragem não significa necessariamente ter todas as respostas. Existe uma tristeza muito verdadeira por trás daquela aventura fantástica, principalmente quando o roteiro começa a explorar temas como perda, culpa e a dificuldade de aceitar aquilo que não podemos controlar.


A Rainha Viúva Alexandra, inclusive, representa muito bem esse lado mais sombrio da narrativa. Suas motivações acrescentam uma camada emocional importante ao conflito, mostrando que até mesmo os personagens mais assustadores podem nascer de sentimentos profundamente humanos.



E não se enganem com a aparência encantadora dos personagens. A LAIKA continua sendo a LAIKA. O estúdio consegue apresentar uma criatura visualmente adorável e, poucos minutos depois, colocá-la no meio de uma situação que faria qualquer pai reconsiderar a classificação indicativa da sessão. As batalhas possuem uma intensidade surpreendente, e o filme não tem medo de apresentar consequências dolorosas. Gostei especialmente dessa coragem de não tratar o público infantil como incapaz de compreender sentimentos difíceis. Há espaço para a leveza, claro, mas também para o medo, a violência e o sacrifício. Tudo isso acompanhado pela belíssima trilha sonora de Dario Marianelli, que sabe exatamente quando transformar uma cena em espetáculo e quando deixar a emoção falar mais alto.


Se existe algo que poderia incomodar, talvez seja a quantidade de informações apresentadas ao longo da jornada. São muitos personagens, territórios, disputas e acontecimentos para acompanhar. Em alguns momentos, o roteiro parece tão apaixonado pelo próprio universo que mal consegue decidir qual maravilha mostrar primeiro. Particularmente, isso não prejudicou minha experiência. Pelo contrário, fiquei com aquela sensação gostosa de estar descobrindo um mundo muito maior do que a história consegue explorar. O terceiro ato, especialmente, recompensa toda essa construção com uma conclusão grandiosa, emocionante e visualmente impressionante. É difícil não se envolver com o destino de Prue e Curtis quando percebemos o quanto os dois mudaram desde o início da aventura.


O Bosque Selvagem é, para mim, uma das melhores animações de 2026 e uma das experiências cinematográficas mais bonitas do ano, digna de premiação grande. É uma obra que respeita a inteligência do espectador, celebra a imaginação e demonstra que histórias fantásticas ainda podem nos surpreender sem precisar reinventar absolutamente tudo. Saí dessa aventura encantado com seus personagens, impressionado com sua qualidade técnica e, principalmente, emocionado com aquilo que ela tem a dizer sobre crescer e aprender a conviver com as perdas.


O diretor e a LAIKA entregaram um filme que merece ser visto no cinema, esqueçam a espera pelo streaming. Afinal, se uma floresta cheia de animais falantes, corvos sequestradores e criaturas gigantes consegue nos ensinar alguma coisa, é que crescer pode até ser inevitável, mas abandonar a imaginação continua sendo uma péssima ideia.




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