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As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você | Crítica sem spoilers

há 22 minutos
5 min de leitura

É muito bom ir à sala de cinema e perceber o quanto o cinema brasileiro vem evoluindo com o passar do tempo. As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você bebe muito da fonte de outros clássicos da comédia romântica e do drama, que trazem o luto como parte de uma jornada de superação. E, apesar de a história não ser tão inovadora, afinal, outras obras já exploraram essa temática, é muito bom ver como ela pode ser adaptada à nossa realidade, dentro do nosso próprio país.


O filme traz uma mensagem muito bonita. Assim como outras obras do gênero, fala sobre como lidar com o luto pela perda de uma pessoa querida. Mas uma das coisas que mais me chamou a atenção é que, mesmo sendo uma história que já estamos acostumados a ver, ela apresenta uma perspectiva um pouco diferente. Não é uma história em que tudo se resolve por meio do romance, da amizade ou dos problemas familiares isoladamente, mas pela conjunção de diferentes fatores.


E isso é muito bonito, porque falar sobre o luto é algo complicado e complexo. Existem muitos estudos, histórias e perspectivas sobre o assunto, mas ninguém consegue definir o luto como uma linha reta. Existem muitas vertentes e, por isso, não há como padronizar os sentimentos das pessoas ou esperar que todo mundo reaja da mesma forma.


O filme traz uma mensagem muito bonita em relação a isso. Mesmo que você consiga compreender que outra pessoa está sofrendo pela perda de alguém que amava, não significa que consiga entender de fato o que ela está sentindo. Afinal, questões como depressão, luto e perda são experiências muito pessoais. E o longa trata tudo isso de uma forma delicada, mostrando que não fala apenas sobre amizade, mas também sobre amor, carinho, família e, acima de tudo, sobre a própria vida.



Afinal, quem nunca foi um pouco Gabi e precisou de uma Júlia para dar aquele empurrãozinho e começar a ousar um pouco mais na vida? O filme também fala sobre equilíbrio e sobre como duas pessoas completamente diferentes podem ser exatamente aquilo de que a outra precisa. E, quando uma dessas partes vai embora, a outra nem sempre sabe muito bem como lidar com essa ausência.


Outro ponto interessante é a maneira como o filme aborda o romance e a construção de um relacionamento mais maduro. A procura pela pessoa ideal, muitas vezes, acaba sendo decepcionante, porque criamos expectativas em torno de alguém que talvez nem exista. A construção de um relacionamento vai muito além daquele primeiro momento de encontrar alguém que parece estar fora do padrão. Está muito mais relacionada ao dia a dia, à convivência e à forma como duas pessoas descobrem possibilidades juntas. Um relacionamento amoroso não precisa seguir aquela narrativa de que o homem perfeito vai aparecer em um cavalo branco.


Às vezes, é preciso olhar um pouco melhor para as possibilidades que já estão ao nosso lado. É uma abordagem que quebra um pouco aquela ideia do amor idealizado e mostra que uma relação também se constrói nas pequenas coisas.


E algo que não tem como deixar de comentar é a atuação de Any Gabrielly. Uma artista e cantora conhecida internacionalmente, que já havia conquistado seu espaço na música e na dublagem, mas que aqui tem a oportunidade de mostrar seu trabalho como atriz em uma produção brasileira. Confesso que fiquei um pouco surpresa, porque, como ainda não tinha acompanhado seu trabalho de atuação em uma produção como essa, não sabia exatamente o potencial que ela tinha. E ela entrega uma atuação maravilhosa, dando vida à personagem de uma forma muito humana.


Aliás, falando das protagonistas, também foi muito legal acompanhar Any Gabrielly e Giulia Be dividindo a tela. Como as duas são artistas e cantoras, com vozes maravilhosas, durante boa parte do filme a gente fica esperando o momento em que elas vão cantar. E o filme até entrega alguns desses momentos, mas confesso que senti falta de uma oportunidade em que as duas pudessem cantar juntas. Acho que teria sido muito interessante ver esse encontro também dentro da música.



Isso acaba conversando muito bem com a própria proposta do filme, porque estamos falando de uma história que, acima de tudo, é humana. E, para contar uma história assim, precisamos de personagens imperfeitos, relações imperfeitas e situações que nem sempre encontram uma solução simples.


Outro elemento de que gostei bastante foi a forma como a produção apresenta o Brasil. Uma das coisas que me incomodam em algumas obras nacionais é essa mania de ocidentalizar, ou melhor, americanizar as histórias brasileiras. E não senti isso aqui. Era como se eu realmente estivesse acompanhando a história de uma jovem que mora em São Paulo e está passando por todos esses problemas. É claro que ainda existe um certo tom fantasioso, afinal, estamos falando de uma história que também tem suas características de ficção, mas isso não tira a proximidade com a nossa realidade.


Durante o filme, encontramos elementos que reconhecemos facilmente, como a Avenida Paulista, a Liberdade, os prédios e as próprias ruas de São Paulo. Isso faz diferença porque conseguimos imaginar uma história que poderia facilmente ter uma ambientação muito mais próxima de uma produção americana, mas que funciona dentro do nosso próprio ambiente. E senti que o filme conseguiu traduzir isso muito bem.


Os elementos emocionais também funcionam muito bem. As músicas foram muito bem escolhidas, e a abordagem do drama acompanha a proposta da história. A melhor parte é que não senti que o filme forçou a temática do luto para entregar uma comédia romântica. Pelo contrário, entregou uma obra que é muito mais drama do que comédia, muito mais drama do que romance. E isso é muito interessante, porque é possível falar sobre romance, amizade e família sem deixar de abordar a perda e o peso do luto. Não é necessário suavizar tanto uma história apenas para que ela se encaixe em uma determinada categoria.


Acho que, no fim, uma das coisas que ficam como mensagem é justamente a possibilidade de abrir portas para que outras obras assim sejam produzidas. O filme é uma adaptação, e espero que daqui para frente possamos ver cada vez mais produções desse tipo. Confesso que é uma abordagem bastante diferente daquela a que eu estava acostumada quando lia livros adolescentes.


Durante a minha adolescência, tive uma leitura muito assídua de livros nacionais, mas eram histórias que geralmente seguiam caminhos mais suaves. Aqui encontramos uma carga dramática diferente, que traz outras possibilidades para esse tipo de narrativa. E espero que isso abra cada vez mais espaço para novas adaptações e histórias como essa. Afinal, o cinema nacional está cada vez mais ocupando seu espaço e conquistando público. E é muito bom poder acompanhar esse movimento.




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