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Coyote vs. Acme | Crítica sem spoilers

  • há 19 horas
  • 4 min de leitura

Sair da sala de cinema após assistir a Coyote vs. Acme me colocou em uma dualidade incômoda. Fiquei em uma espécie de cabo de guerra mental que, sinceramente, talvez nem esta crítica consiga resolver por completo. Por um lado, há um entusiasmo quase infantil em rever o universo dos Looney Tunes na tela grande, acompanhando uma história tão fora da curva, misturando animação tradicional 2D em perspectiva 3D ao melhor estilo Uma Cilada para Roger Rabbit. Por outro, enquanto cada cena passava, eu não conseguia parar de pensar no tamanho do potencial narrativo que estava ali e no quanto ele parecia esbarrar em escolhas de direção, roteiro e montagem meio tortas. É um sentimento confuso, de verdade. Talvez o filme ainda precise decantar na minha cabeça, ou talvez eu só esteja tentando me convencer de que vi algo melhor do que realmente vi porque queria muito ter tido essa experiência. Enfim, vamos tentar organizar essa bagunça de pensamentos.



Aliás, em textos desse tipo eu evito ao máximo focar no que acontece fora da tela, mas aqui a ironia da vida real é saborosa demais para passar batido. O enredo do filme gira em torno da pouca consideração que a corporação ACME tem pelos seus desenhos, tratando tudo como produto descartável que só serve enquanto dá dinheiro. E aí, ironicamente, a própria Warner resolveu engavetar a produção finalizada apenas para usá-la como abatimento fiscal, cancelando uma obra que falava exatamente sobre cancelar coisas por pura estratégia corporativa. Depois de toda a revolta do público, a Ketchup Entertainment acabou comprando os direitos de distribuição para colocar o projeto nos cinemas. Enfim, antes mesmo do lançamento o filme viveu uma novela de longos anos, mas o fato é que a obra finalmente está entre nós.



A premissa em si é excelente. O Wile E. Coyote resolve processar a ACME na justiça por conta dos milhares de produtos defeituosos que adquiriu ao longo dos anos. É o tipo de ideia absurda que faz você pensar que tem tudo para dar certo, e acompanhar esse desenrolar investigativo é divertido. Ou pelo menos deveria ser. Aqui vale um parêntese importante: nunca fui super fã do universo Looney Tunes, mas sempre tive um fraco por Looney Tunes: De Volta à Ação. Aquele filme conseguia ser um besteirol muito esperto e divertido, que fazia rir de forma simples e direta sem precisar desenhar a piada ou tratar o espectador como bobo. Só que em Coyote vs. Acme, embora a atmosfera meio metalinguística esteja ali, a conta não fecha tão bem.



A direção parece se enrolar em vários momentos, hesitando no enquadramento, no foco do que deveria estar em tela e em escolhas de montagem que parecem cortar o ritmo das piadas visuais sem necessidade. É frustrante porque a sensação é de estar diante de um filme que varia o tempo todo entre momentos de boa direção e trechos muito mal executados, dando aquela vontade incômoda de ajustar a cena com as próprias mãos. Para piorar, o roteiro entrega falas pouco inspiradas, dizendo o óbvio ou apelando para diálogos meio bobos. E veja bem, não é uma questão de esquecer a suspensão de descrença que um filme de desenho exige, é só que ver atores competentes como Will Forte, Lana Condor e John Cena tendo que defender linhas de texto tão simplórias dá um certo incômodo.



Essa confusão toda fica ainda mais clara quando paro para pensar na experiência que tive na própria sala de cinema. Fiquei até surpreso ao ver uma quantidade enorme de pais levando seus filhos pequenos para a sessão, impulsionados por uma certa ingenuidade coletiva de achar que, só por ter animação e os personagens do Looney Tunes em tela, é automaticamente um filme infantil. A verdade é que o desenrolar da história simplesmente não tem apelo para os pequenos, deixando a sessão bem enfadonha para eles. Claro que o filme até tenta dar uma agradada nas crianças em alguns momentos, mas fica a impressão nítida de que ele foi feito pensando exclusivamente em um público que definitivamente já foi criança há algumas décadas atrás.



No fim das contas, sigo sem saber exatamente onde colocar este filme na minha prateleira mental, e é essa incerteza que me faz continuar remoendo cada cena. Tecnicamente falando, o filme tem problemas latentes de condução e ritmo que gritam na tela. Só que ao mesmo tempo, quando eu estiver conversando com amigos, colegas ou qualquer pessoa que me pergunte sobre ele, eu sei que vou recomendar a sessão com um sorriso no rosto. É essa a dualidade absurda que fica latejando na minha cabeça. O filme é imperfeito, mal acabado em vários aspectos, mas a experiência de ver essa maluquice no cinema valeu a pena. Fiquei dividido, mexido e sigo sem uma conclusão definitiva, mas é justamente por ser esse desastre fascinante que ele virou uma grata e curiosa surpresa no cinema, e que, no mínimo, me deixou com uma baita vontade de rever Looney Tunes: De Volta à Ação de novo.




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