Insaciável | Crítica sem Spoilers
- há 8 minutos
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O filme nos apresenta Hana, uma estudante de medicina que, há anos, nutre uma preocupação constante com o próprio corpo e com a perda de peso. Influenciada por uma amiga, ela decide iniciar um programa extremo à base de pílulas produzidas com cinzas humanas.

Logo nos primeiros minutos, temos uma breve ideia do que nos espera. Os takes escolhidos para dar início à história já despertam uma certa repulsa, conduzindo o espectador a sentir nojo diante do que está sendo apresentado. Os enquadramentos contribuem muito para essa sensação, principalmente pela maneira como determinadas imagens são construídas na tela. Isso me fez lembrar bastante a primeira abertura de Dexter.
Eu fui preparada para assistir a algo parecido com A Substância, principalmente por conta das críticas à indústria cinematográfica e à busca incessante pelo corpo perfeito. Mas já adianto que as únicas semelhanças entre as duas produções estão na premissa da crítica e na utilização do grotesco para ilustrá-la.

Na verdade, na minha percepção, o longa se perde em alguns momentos. Chega a parecer que havia um roteiro definido, depois alguém mudou de ideia e, por fim, mudou de ideia novamente. Isso faz com que algumas viradas, que inicialmente pareciam previsíveis (mas que poderiam funcionar muito bem), acabam sendo deixadas de lado em favor de soluções que não fazem tanto sentido. Os núcleos envolvendo a família e a amiga também poderiam ter sido muito mais explorados, já que tinham potencial para acrescentar bastante à narrativa.
Midori Francis (Hana) interpreta bem sua personagem. Ela consegue ser bastante caricata, utilizando expressões e trejeitos que transmitem tanto a angústia quanto o humor de maneira muito eficiente. É perceptível que a atriz faz o possível para extrair algo interessante da personagem. O problema está nas conveniências do roteiro, que fazem com que uma estudante de medicina pareça mais esperta e resolutiva do que uma equipe inteira de um episódio de CSI.

Madeleine Madden (Alanya) possui um papel importante para o andamento e o desfecho da trama. Sua atuação cumpre aquilo que o roteiro propõe, sem grandes momentos de exuberância, mas também sem comprometer. Ela entrega o que é necessário e faz isso bem. Seu grande destaque, para mim, está na cena final.
Já Annie Shapero (Melissa) entra na história para causar uma certa bagunça e, quando finalmente ganha mais espaço, acaba confundindo mais do que contribuindo para o desenvolvimento da narrativa. O arco da personagem fica bastante aberto, dando a sensação de que havia mais coisas planejadas para ela, mas que acabaram não sendo desenvolvidas.

Apesar de todas essas questões, não posso deixar de exaltar o trabalho de maquiagem, que está impecável. Os personagens, quando surgem em suas formas mais grotescas, são extremamente críveis e bem construídos. Os enquadramentos também são muito bem pensados e executados, contribuindo diretamente para a atmosfera de desconforto que a produção busca criar. Já o CGI não está entre os melhores, mas, ainda assim, funciona dentro da proposta e não chega a comprometer completamente a experiência.
O longa é dirigido por Natalie Erika James, que, apesar de ainda não possuir uma filmografia tão extensa, já demonstra bastante familiaridade com o gênero do terror, tendo dirigido produções como Apartment 7A (2024) e Relíquia Macabra (2020).

Em suma, o longa possui momentos de altos e baixos. A ideia central é muito boa, mas sua execução deixa a desejar. Enquanto assistia, reescrevi mentalmente o roteiro várias vezes, tentando encontrar um fio condutor mais linear para o desenvolvimento da história, mas muitas das decisões tomadas pelo roteiro pareciam levar a caminhos diferentes.
Ainda assim, gostei da cena final. Na minha interpretação, ela estabelece uma boa conexão com o início da produção e cria uma relação interessante com a ideia das pílulas. Essa, porém, foi a interpretação que eu tive da cena, já que o filme não deixa tudo tão explícito. E talvez esse seja o seu maior pecado: as pontas soltas.

Eu gosto de finais abertos, especialmente quando eles nos fazem pensar e permitem diferentes interpretações. O problema é que aqui existem tantas questões sem resposta que fica difícil encontrar um caminho para seguir. Você termina o filme com a sensação de que faltou alguma coisa. Como se algumas peças importantes tivessem sido deixadas pelo caminho.
No fim, é uma produção com uma proposta interessante, uma estética muito bem construída e alguns bons momentos, mas que acaba sendo prejudicada por um roteiro que parece não saber exatamente para onde quer levar sua própria história.


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