No Limite da Justiça | Crítica sem spoilers

Assistir a No Limite da Justiça é ser fisgado do início ao fim por uma produção estilosa, tensa e absurdamente envolvente. A comparação com obras na pegada de Infiltrado na Klan vem quase no automático pela temática dos Direitos Civis nos anos 60 e o confronto contra a Ku Klux Klan. Só que enquanto o Spike Lee transita com maestria entre a denúncia social dolorosa e uma sátira afiada, o diretor Elegance Bratton prefere entregar aqui um entretenimento visceral de primeira linha. É um filme muito forte de se ver e ouvir, que constrói uma imersão excelente em um mundo onde o tempo e as coisas pareciam correr em outro ritmo, mesmo que de vez em quando o roteiro dê umas escorregadas em escolhas de tom e direção meio desajeitadas.

O grande trunfo da obra está na atuação impecável de Yahya Abdul-Mateen II no papel do agente federal Wayne Strider. É um ator que eu já admirava e que aqui entrega uma interpretação sutil e brilhante. Logo nas primeiras cenas, fica latente o pavor e a cautela extrema que ele carrega no corpo. Num ambiente onde o racismo é escancaradamente institucionalizado, retratado de forma cruel em detalhes simples, como as plaquinhas de "apenas para brancos" pregadas nas portas dos estabelecimentos, o simples ato de puxar e mostrar um distintivo federal exige um cálculo meticuloso para não virar alvo de represália. Yahya transmite todo esse peso da história na postura, no olhar e no cansaço que vai acumulando a cada cena.

É aí que entra o contraste irônico com o personagem de Mark Wahlberg. O filme não desenha de forma explícita o passado dele, mas deixa subentendido um histórico denso no submundo do crime e na realização daqueles "serviços sujos" que ninguém quer assumir. Wahlberg entrega uma atuação exagerada, em um tom brucutu de quem simplesmente liga o foda-se para tudo e resolve qualquer impasse na base do soco e da ignorância. Esse choque entre o agente negro que precisa pisar em ovos e o sujeito branco que chega atropelando as regras cria uma dinâmica incrível, embora a caracterização do Wahlberg acabe parecendo um tanto caricata perto da gravidade do contexto.

No aspecto técnico, a produção dá um show. A fotografia é linda, a montagem tem um ritmo excelente e o figurino simples, porém muito característico, ajuda a transportar o espectador direto para a década de 60. O único ponto fora da curva fica para quando o enredo tenta exagerar nas sequências de ação. Algumas escolhas soam um pouco bobas, como perseguições de carro que viram um corre-corre meio caricato no meio de trocas de tiros, ou vigílias que simplesmente passam despercebidas por todo mundo no local como se os personagens fossem invisíveis. São pequenas conveniências de roteiro que quebram brevemente o realismo que o filme constrói tão bem.

No entanto, o que realmente amarra a experiência é ver a trajetória do protagonista. Ele começa querendo apenas fazer o seu trabalho e crescer na carreira como agente, mas acaba sendo tragado para uma trama muito maior do que esperava, colocando em risco as pessoas mais importantes do seu convívio. Conforme a história avança e a desgraça se acumula, acompanhamos o seu amadurecimento ao ganhar casca e experiência real, entendendo que existe um outro jeito de resolver o caso quando as vias tradicionais se mostram insuficientes.

Ainda que tenha tropeços pontuais nas cenas de ação, No Limite da Justiça é uma grata surpresa um filme tão bom sair sem tanto apelo ao público. Ele segura a atenção da gente do primeiro ao último minuto, unindo o impacto visual de uma grande produção com uma transformação de personagem profunda e desconfortável que ecoa na cabeça muito tempo depois que os créditos sobem.


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