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A Maravilhosa Árvore Encantada | Crítica Sem Spoilers

há 11 minutos
6 min de leitura

Existe uma ironia bonita no centro de A Maravilhosa Árvore Encantada (The Magic Faraway Tree, 2026). Dirigido por Ben Gregor e escrito por Simon Farnaby, de Wonka e As Aventuras de Paddington 2, o filme parte da fantasia infantil criada por Enid Blyton para falar de uma questão bastante contemporânea: o que acontece quando estamos tão ocupados olhando para as telas que deixamos de perceber as pessoas ao nosso redor?



A família formada por Polly e Tim, interpretados por Claire Foy e Andrew Garfield, chega ao interior depois de uma mudança que, inicialmente, parece muito mais um problema do que uma oportunidade. Para os filhos, especialmente Beth, vivida por Delilah Bennett-Cardy, deixar Londres significa abrir mão dos amigos, da internet e de uma rotina conhecida. Joe, interpretado por Phoenix Laroche, também demonstra forte ligação com os jogos e dispositivos eletrônicos. Fran, papel de Billie Gadsdon, é quem se mostra mais disponível para aquilo que existe fora das telas.


A diferença entre os irmãos funciona bem porque o filme não transforma nenhum deles em caricatura. Beth não é simplesmente “a menina viciada em internet”, assim como Fran não é apresentada como uma criança perfeita por preferir a natureza. São respostas diferentes diante de uma mudança que ninguém escolheu completamente. E, nesse aspecto, o filme encontra uma de suas observações mais humanas: às vezes, aquilo que chamamos de resistência é apenas dificuldade para abandonar o que conhecemos.



Polly e Tim também fogem do modelo tradicional de adultos completamente racionais conduzindo crianças para uma aventura. Há algo de curioso no casal, como se ambos carregassem consigo uma parcela daquela infância que os filhos ainda vivem. Eles precisam pensar em dinheiro, trabalho, casa e futuro, mas continuam capazes de imaginar que uma vida diferente pode funcionar. Claire Foy constrói uma Polly mais prática e determinada, enquanto Andrew Garfield dá a Tim uma espontaneidade quase juvenil. A combinação dos dois faz com que a família pareça menos idealizada e mais próxima de uma família real, com inseguranças, expectativas e pequenas contradições.


É nesse cenário que surge a árvore encantada. Fran conhece Silky, interpretada por Nicola Coughlan, e descobre um portal para mundos que parecem existir justamente para lembrar às crianças que a realidade pode ser maior do que aquilo que cabe em uma tela. A premissa poderia facilmente conduzir o filme para uma aventura convencional de fantasia, mas a produção escolhe um caminho um pouco diferente.


A vilania, por exemplo, ocupa um espaço surpreendentemente reduzido. Existe conflito, ameaça e antagonismo, mas derrotar um inimigo nunca parece ser a verdadeira razão daquela jornada. O interesse está muito mais no que os personagens encontram pelo caminho e, principalmente, no que essas experiências modificam entre eles. É uma escolha que considero particularmente acertada, porque mantém o foco naquilo que parece ser a verdadeira proposta da obra: não vencer uma ameaça, mas redescobrir o prazer de estar junto.



Essa perspectiva também impede que a crítica à tecnologia se torne simplista. O filme não parece dizer que celulares, jogos ou internet são responsáveis por todos os problemas contemporâneos. A questão está no desequilíbrio, naquilo que acontece quando a tecnologia passa a ocupar o espaço de uma conversa, de uma brincadeira ou até de um silêncio compartilhado. A árvore oferece exatamente o contrário disso. Não há uma experiência pronta esperando pelo espectador. É preciso entrar, explorar, se perder e descobrir.


E talvez seja aqui que o filme mais me ganhou. Conforme a aventura avança, os mundos fantásticos não precisam necessariamente competir com as pequenas experiências da vida cotidiana. Cozinhar, cantar, trabalhar, rir ou simplesmente passar algum tempo em família começam a adquirir um valor semelhante ao dos lugares mágicos. A fantasia não funciona como uma fuga da realidade, mas como uma maneira de reaprender a enxergá-la. Os personagens conseguem demonstrar um equilíbrio entre a realidade e a fantasia.


Essa ideia ganha ainda mais força porque existe uma certa melancolia em A Maravilhosa Árvore Encantada. Crescer significa, inevitavelmente, deixar algumas coisas para trás. A infância muda, as responsabilidades aumentam e o tempo passa. Mas o filme sugere que amadurecer não deveria significar eliminar completamente a capacidade de se encantar. Para mim, essa é uma das leituras mais bonitas da história: talvez não precisemos recuperar a infância, mas apenas não permitir que tudo aquilo que havia de curioso nela desapareça completamente.



Visualmente, o longa entende muito bem essa proposta. A fotografia trabalha com cores intensas, iluminação calorosa e cenários de aparência quase artesanal, criando um universo que parece ter saído de um livro infantil sem permanecer preso a uma estética antiquada. A árvore e a floresta possuem textura e personalidade próprias, enquanto os diferentes mundos ampliam progressivamente a sensação de descoberta.


Os efeitos visuais acompanham essa construção sem apagar completamente sua natureza de fantasia. A direção de arte mistura elementos retrô com computação gráfica contemporânea, dando aos ambientes uma aparência deliberadamente exagerada. É um filme que não parece interessado em tornar seus mundos mágicos realistas; ele quer que sejam reconhecivelmente imaginários. A própria câmera participa dessa descoberta. Os enquadramentos frequentemente colocam as crianças diante de espaços que parecem maiores do que elas, reforçando a sensação de estar entrando em algo desconhecido. Os movimentos acompanham essa exploração com leveza, sem transformar cada passagem em um espetáculo grandioso. Ben Gregor parece compreender que, para uma história como essa, o olhar de quem descobre é mais importante do que a escala do que está sendo descoberto.


A música segue essa mesma lógica. A trilha sonora percorre praticamente toda a narrativa e funciona como uma espécie de elo entre seus diferentes registros. Quando a história se abre para o fantástico, a música ajuda a ampliar o encantamento; quando retorna para a família, assume uma dimensão mais calorosa e íntima. Seu papel não é simplesmente preencher o silêncio, mas acompanhar a transformação emocional dos personagens. É uma trilha que ajuda o filme a manter sua identidade mesmo quando os cenários e situações mudam constantemente.



No elenco, Billie Gadsdon encontra em Fran uma personagem particularmente interessante. Sua interpretação acompanha a transformação de uma criança inicialmente mais reservada em alguém disposta a ocupar aquele espaço de descoberta. Delilah Bennett-Cardy, por sua vez, dá a Beth uma resistência que faz sentido dentro da história, enquanto Phoenix Laroche contribui para o equilíbrio mais descontraído entre os irmãos.


Entre os adultos, Claire Foy consegue transmitir a preocupação de Polly sem reduzir a personagem à função de mãe protetora. Andrew Garfield, em contraste, aposta em um Tim mais leve, preservando uma espécie de entusiasmo infantil que combina com a proposta do filme. A química entre os dois ajuda a sustentar a ideia de que aquela família está, de certa maneira, redescobrindo sua própria dinâmica.


Os personagens mágicos seguem uma linguagem mais teatral. Nicola Coughlan, como Silky, acrescenta delicadeza e carisma; Nonso Anozie, como Cara de Lua, e Dustin Demri-Burns, como o Homem-Panela, abraçam o humor absurdo do universo; enquanto Rebecca Ferguson, como Dame Snap, entrega uma atuação deliberadamente exagerada. O elenco entende que não há espaço para cinismo aqui. A fantasia funciona justamente porque seus intérpretes aceitam completamente a lógica daquele mundo.



O roteiro, contudo, nem sempre acompanha a riqueza de sua premissa. A estrutura episódica das aventuras faz com que alguns acontecimentos pareçam mais interessantes isoladamente do que dentro de uma progressão narrativa mais consistente. Determinados personagens e mundos poderiam ter recebido maior atenção, e alguns conflitos são resolvidos com facilidade. Não é um filme particularmente interessado em surpreender o público com sua estrutura.


Mas talvez exigir isso dele seja perder um pouco o ponto. A Maravilhosa Árvore Encantada não parece querer reinventar a fantasia familiar. Sua ambição é mais simples e, de certa maneira, mais difícil: fazer o espectador lembrar de como era olhar para alguma coisa sem a necessidade de transformá-la imediatamente em conteúdo. Por isso, funciona especialmente bem como filme para assistir em família. Uma criança pode acompanhar a aventura, os personagens mágicos e os mundos coloridos; um adulto pode reconhecer na história a dificuldade de equilibrar trabalho, tecnologia, responsabilidades e tempo de qualidade. Cada geração provavelmente sairá da mesma árvore levando consigo uma coisa diferente.



No final, o que permanece não é exatamente a imagem de um grande confronto ou de um vilão derrotado. É a lembrança de uma família que voltou a rir junta. E há algo de muito bonito nisso, pois a verdadeira magia da árvore não parece está em levar seus visitantes para outros mundos, mas em fazê-los retornar ao próprio mundo com novos olhos.


A Maravilhosa Árvore Encantada está em cartaz nos cinemas brasileiros desde 10 de setembro de 2026. Confira o trailer a seguir:





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