Velhos Bandidos | Crítica sem Spoilers
- há 14 horas
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Dirigido por Cláudio Torres (vencedor de Emmy Internacional), Velhos Bandidos chegou aos cinemas brasileiros em 26 de março de 2026 como uma comédia de ação policial que aposta no carisma de um elenco experiente, ao mesmo tempo em que se mistura com novas gerações para construir uma narrativa leve, mas carregada de simbolismo.

O filme acompanha Marta (Fernanda Montenegro) e Rodolfo (Ary Fontoura), um casal de aposentados que decide planejar um assalto a banco, recrutando dois jovens cúmplices, Nancy (Bruna Marquezine) e Sid (Vladimir Brichta), enquanto tentam escapar do obstinado investigador Oswaldo Aranha (Lázaro Ramos). Apesar do grande potencial temático e da originalidade da ideia, é possível perceber um descompasso entre a proposta e a execução, resultando em um filme que oscila entre momentos de drama superficial e comédia exagerada.
Uma das atuações mais esperadas é, sem dúvida, a de Fernanda Montenegro. Aos 96 anos, a atriz entrega uma personagem que mistura ironia, lucidez e ousadia, contrastando com estereótipos típicos da velhice geralmente impostos à população idosa. Sua performance é magnética e atravessada por camadas de reflexão, nas quais a consciência da própria finitude é elaborada de forma sensível e significativa.

Ary Fontoura, que interpreta Rodolfo, funciona como um contraponto cômico eficiente, atuando como elemento de leveza sem comprometer a coerência dramática, o que sustenta a química do casal protagonista. Ambos evidenciam uma dinâmica relacional consistente, operando em complementaridade cênica. Enquanto a personagem de Montenegro carrega uma dimensão mais reflexiva, o personagem de Fontoura atua como mediador entre o humor e a ação, contribuindo para a fluidez narrativa.

Ao analisar Oswaldo Aranha, interpretado por Lázaro Ramos, observa-se a construção de um personagem com traços levemente caricaturais, cuja principal função é imprimir dinamismo e ritmo à narrativa por meio da figura do investigador persistente. No entanto, seu arco dramático não recebe o mesmo nível de aprofundamento, possivelmente em função da duração enxuta do filme. Como resultado, sua trajetória tende a soar superficial, gerando a percepção de fragilidade na construção de seus conflitos.

Entre os atores mais jovens, destacam-se Bruna Marquezine, conhecida por Besouro Azul, e Vladimir Brichta, de Bingo: O Rei das Manhãs. Ambos desempenham suas funções de maneira eficiente, porém com construções menos complexas em comparação ao núcleo principal, atuando mais como suporte narrativo do que como protagonistas efetivos. Seus personagens seguem trajetórias previsíveis e operam predominantemente no campo cômico, o que contribui para a leveza, mas limita a profundidade de seus arcos.

Essa característica se evidencia sobretudo no início da narrativa, em que o ritmo mais lento é sustentado por cenas de humor pontual, muitas vezes baseadas em releituras de situações clássicas do cinema atualizadas com elementos contemporâneos, como na cena do sofá, que ironiza a ideia de que pessoas idosas estariam cada vez mais inseridas nas novas tecnologias.
Cláudio Torres adota uma direção de caráter funcional, priorizando a fluidez narrativa e a eficiência na condução das cenas. A fotografia apresenta um padrão próximo ao televisivo, com imagem limpa, bem iluminada e de fácil leitura. Essa escolha contribui para o tom leve, mas limita a construção de uma identidade visual mais marcante, com pouca exploração de estéticas autorais.
A montagem sustenta um ritmo dinâmico, alinhado à proposta do gênero, aspecto reforçado pela trilha sonora de Carlos Trilha, que utiliza recursos sonoros para sugerir suspense, elemento fundamental em narrativas de assalto. Ainda assim, nota-se a ausência de uma tensão dramática mais consistente em momentos-chave, o que reduz o impacto de determinadas sequências. A trilha cumpre função mais complementar do que expressiva, sem se destacar como elemento memorável.

O roteiro, assinado por Cláudio Torres com colaboradores, parte de uma premissa criativa, idosos protagonizando um grande crime, carregando potencial crítico e simbólico. Há uma leitura interessante sobre envelhecimento, invisibilidade social e reinvenção na velhice, sugerindo um subtexto de maior densidade.
Entretanto, o desenvolvimento opta por soluções mais convencionais. A estrutura segue padrões recorrentes do gênero heist movie, apoiando-se em reviravoltas previsíveis e conflitos pouco aprofundados. O humor sustenta o ritmo e a leveza, mas frequentemente se ancora em situações de fácil assimilação, o que dilui a força de questões mais complexas. Assim, aspectos que poderiam ser explorados com maior profundidade perdem espaço, reduzindo o potencial crítico da obra.
O elenco de apoio reúne nomes como Hugo Bonèmer, Reginaldo Faria, Vera Fischer, Laila Garin, Dhara Lopes, Hamilton Vaz Pereira, Teca Pereira, Mary Sheila, Nathália Timberg, Tony Tornado e Guida Vianna, compondo um conjunto que reforça o peso simbólico e geracional da produção. Embora muitos tenham participações pontuais, suas presenças contribuem para a construção de um universo diverso e legitimado por trajetórias consolidadas no audiovisual brasileiro. Ainda assim, a maioria desses personagens não recebe desenvolvimento significativo, resultando em um subaproveitamento de seu potencial.

Em análise geral, a sequência final se destaca como o ponto de maior tensão e elaboração narrativa, especialmente ao evidenciar a astúcia de Marta, interpretada por Fernanda Montenegro, em sua relação com Nancy e Sid. A cena é construída com sutileza, evitando excessos e apostando na força da interpretação, o que potencializa seu impacto. Mais do que um desfecho funcional, o momento opera como síntese temática da obra, reafirmando a autonomia da protagonista e consolidando o tom irônico e crítico do filme.
Como projeto, Velhos Bandidos carrega um peso afetivo e simbólico significativo, sobretudo por reunir grandes nomes do cinema brasileiro e por possivelmente marcar uma fase final da trajetória de Fernanda Montenegro nas telonas. Nesse contexto, a obra se configura mais como uma celebração do que como uma proposta de inovação estética ou narrativa.

O filme se sustenta pelo carisma de seu elenco e pela força de sua premissa, embora não alcance o mesmo êxito em sua execução cinematográfica. Ainda assim, consolida-se como uma comédia de ação funcional, com apelo emocional e relevância dentro do panorama do cinema nacional contemporâneo.
Em última instância, a narrativa desloca o foco do assalto para uma reflexão sobre o tempo, o legado e a possibilidade de reinvenção, enfatizando a capacidade de permanecer agente da própria história independentemente da idade.

Por: Bianca Ribeiro.
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