Uwe Boll | Suas adaptações fracassadas de games para o cinema e como ele consegue financiá-las

Atualizado: 3 de Set de 2019

Adaptações de games para o cinema é algo complicado até hoje. Alguns são detonados pela crítica, mas o público gosta; e outros são simplesmente horríveis ao ponto de nem o mais saudosista dos fãs conseguir defender. Inclusive, existe uma boa história sobre a adaptação do icônico mascote da Nintendo, que saiu em 1993, que merece um texto no futuro.


Mas aqui irei falar sobre as adaptações feitas pelo ex-diretor — sim, “ex”; pois alguma entidade cósmica sensata fez este mamífero possuidor com polegares opositores, finalmente, optar pela aposentadoria nas direções — e produtor alemão, Uwe Boll (também conhecido como “açougueiro da sétima arte”).

Uwe boll e a serenidade no olhar de quem vai destruir um game! Mas ainda vai conseguir ganhar dinheiro com isso.

Pretendo seguir focando apenas nos filmes adaptados de games que ele dirigiu, em ordem cronológica; já que existem sequências de alguns deles, mas que ele atuou apenas como produtor — e, mesmo assim, não impediu dos filmes serem de qualidade extremamente duvidosa. Mas depois vamos tentar entender como ele consegue gente para financiar suas loucuras.


Senta aí, pega uma pipoca e cuidado com o que vem a seguir...


The House of The Dead


Gastei muita ficha neste jogo!

Lançado inicialmente para Arcade e depois para Sega Saturn e PC, o jogo é um first-person shooter e survival horror, onde o jogador encarna o papel de agentes da AMS (policia secreta de defesa civil) e que se resume em atirar em zumbis enquanto avança dentro de uma casa infestada deles. E no que ele foi transformado nas mãos do Boll?


House of the Dead: O Filme (2003) conta a história de um grupo de estudantes visitando a misteriosa Ilha da Morte, que séculos atrás abrigou um padre banido da Espanha por inventar um soro que engana a morte. Para o horror dos estudantes, eles encontram o padre ainda vivo e uma ilha infestada de zumbis! Para piorar a situação, o passatempo do padre é colher partes de corpos humanos e usá-los nele mesmo para manter-se vivo. Segue o trailer aí:

Sem usar atores com relevância para o público e um orçamento de apenas US$ 12 milhões, Boll fez um verdadeiro milagre! Se visto com os olhos de um amante de filmes B, pode até render algumas risadas. E, apesar do game ter uma história simples e muito rasa, o filme ficou muito longe do que era o jogo.


Mas em todos os sites mais conhecidos em que é possível avaliar o filme, como Metracritic, Rotten Tomatoes e IMDB; House of The Dead: O Filme é um fracasso astronômico! E, por incrível que pareça, ganhou uma continuação; mas desta vez sem o envolvimento de Uwe Boll em nada do filme.


David Palffy, como padre Castillo; e Ona Grauer, como Alicia.

BloodRayne



Com seu primeiro jogo lançando em 2002 e desenvolvido pela extinta Terminal Reality — aquela desenvolvedora que fez o (sarcasmo modo ON) maravilhoso jogo The Walking Dead: Survival Instinct —, a franquia rendeu alguns bons games.


O jogo se passa antes da Segunda Guerra Mundial, entre 1933 e 1939, e conta a história de Rayne, uma dhampir (uma raça meio humana e meio vampira) fruto do estupro de uma humana, cometido por Kagan, o Rei dos Vampiros. Ela termina sendo recrutada pela misteriosa Brimstone Society para lutar contra criaturas sobrenaturais — e também contra nazistas — em diversos lugares do mundo.


Já como filme, de 2005, Rayne ainda é uma dhampir filha bastarda do Rei dos Vampiros. Mas ela é mantida em cativeiro pelos servos do seu pai, por medo que ela possa interferir em seus planos. Porém, ela consegue escapar do cativeiro.

Talvez o trailer deva ter quebrado algum recorde de clichês!


Ao tomar conhecimento de sua existência, a Brimstone Society decide recrutá-la para impedir os planos de seu pai. Uma cartomante revela a ela que Kagan está procurando um artefato místico e que se ela o conseguir, teria uma audiência com seu pai e, desta forma, ela teria a oportunidade de matá-lo, já que ele reside em uma fortaleza praticamente impenetrável.


Por incrível que pareça, o filme conta com nomes como Ben Kingsley, Michael Madsen, Billy Zane (que hoje é um nome praticamente sem relevância) e Kristanna Loken (que deve ter tido seu ponto mais alto da carreira em O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas).


Até tinha um elenco relativamente decente.

Com orçamento de US$ 25 milhões e uma arrecadação de apenas US$ 3,7 milhões... acho que nem preciso dizer que foi um fiasco, né? Mas isso não impediu de ter duas continuações, também dirigidas por Uwe Boll. BloodRayne 2: Libertação, com um orçamento de apenas US$ 10 milhões ele conseguiu arrecadar — pasmem — US$ 167 milhões ao redor do mundo; enquanto o terceiro, Bloodrayne 3: O Terceiro Reich, também os mesmos modesto US$ 10 milhões de orçamento, não conseguiu repetir a façanha do anterior, mas pelo menos se pagou.


Alone In The Dark



Alone in The Dark é uma franquia de jogos de survival horror bem popular da década de 90. Desenvolvida pela Infogrames, o primeiro jogo foi lançado em 1992, é considerado o pai deste gênero e um dos primeiros jogos a usar personagens poligonais sobre fundos pré-renderizados. Mas é preciso reconhecer que Resident Evil, de 1996, foi o maior responsável pela massificação deste gênero.


No jogo, Jeremy Hartwood, um excêntrico artista proprietário da mansão Derceto, comete suicídio. Sua morte parece não surpreender ninguém e sua mansão tem a reputação de ser assombrada; e o caso rapidamente cai em esquecimento.


O jogador pode assumir o papel de Edward Carnby, um investigador particular; ou de Emily Hartwood, sobrinha de Jeremy; para investigar a mansão em busca de um piano, que Emily acredita ter um compartimento secreto com uma carta que explica os motivos do suicídio de sei tio.


Emily e Edward na tela de seleção. E joguei muito essa game!

Já o filme, intitulado de Alone in the Dark: O Despertar do Mal, Edward Carnby — interpretado por Christian Slater — é um detetive sobrenatural especializado no ocultismo. Ele já foi objeto de experimentos estranhos quando criança, deixando-o com habilidades sobrenaturais, que incluem um "sexto sentido" que lhe permite sentir o paranormal.


Em seu tempo livre, Carnby investiga o desaparecimento de Abkani, uma antiga civilização maia que adorava criaturas demoníacas de outra dimensão. A motivação dele nessa investigação é que o Museu de História Natural onde Aline, sua namorada, trabalha possui vários artefatos relacionado à Abkani e parece existir alguns ocultistas perigosos interessados nestes artefatos. Segue o trailer:

Não consigo acreditar que alguém viu isso e pensou: “nossa, me empolguei para esse filme.”.


O filme teve um orçamento de US$ 20 milhões e arrecadou pouco mais de US$ 10 milhões. E, novamente, um fracasso de Boll consegue uma sequência. Mas desta vez Uwe Boll é apenas produtor, deixando a direção para Michael Roesch e Peter Scheerer, que não possuem trabalhos relevantes o suficiente para serem mencionados aqui; e o filme também foi outro fiasco.


Postal



Desenvolvido pela Running with Scissors, Postal é game de tiro com visão isométrica que consiste em seu personagem, conhecido apenas como Postal Dude, sair por aí cometendo um massacre por onde passa, na intenção de chegar a uma base militar, pois ele acredita que todos estão infectados com algum tipo de doença e que ele é imune a ela.


Muito controverso, recebeu muitas críticas ruins; mas tornou-se um sucesso cult para o público, vendendo aproximadamente 200 mil cópias. Porém, por se tratar de um jogo muito violento, causou inúmeros problemas para seus publicadores; chegando a ser banidos em 10 países.


A expressão “going postal”, que dá nome ao jogo, se refere a vários incidentes que ocorreram em empresas de serviço postal norte-americanas, onde funcionários repentinamente tornaram-se agressivos, aparentemente por conta de estresse, chegando a cometer agressões, suicídios e até a abrir fogo contra civis.


Uma das imagens promocionais do filme. Preparem-se!

O filme é conhecido por aqui como Salve-se Quem Puder!. Postal Dude (interpretado por Zack Ward) descobre que a mulher está traindo-o, não consegue emprego (devido ao incidente embaraçoso com bandeira americana e que toda a cidade viu) e ainda acaba matando um sujeito por acidente.


Tendo que fugir, ele encontra um culto comandado por seu tio Dave, que deve milhões em impostos. Para conseguir pagar a dívida eles planejam roubar um carregamento de bonecos raros e vendê-los no merco negro. Mas Osama Bin Laden — sim, isso mesmo, o terrorista! —, que está escondido no Arizona, também está de olho no tal carregamento, com o propósito de roubar os bonecos, envenená-los e distribuí-los às crianças americanas. Vejam o trailer dessa bagunça:

Tinha tudo de errado e mais um pouco!


Com um orçamento de US$ 15 milhões, o filme arrecadou — mais uma vez pasmem — pouco mais de US$ 146 milhões! Uma sequência chegou a ser planejada, mas terminou sendo cancelada.


Outra coisa que chamou atenção neste filme foi a presença do premiado J.K. Simmons, que vinha de uma ótima sequência de filmes! Como Uwe Boll consegue essas coisas?


A Dungeon Siege



Dungeon Siege é um jogo de RPG produzido por um estúdio subsidiado da Microsoft Game Studios e lançado em 2002, com temática muito parecida com a do clássico Diablo 2.


No jogo, o Reino de Ehb, uma região do continente chamado Aranna, criada três séculos antes na dissolução do Império das Estrelas. No início, a vila do personagem principal (que é nomeado pelo jogador) é atacada por uma raça de criaturas chamada Krug. Fazendo o jogador sair por aí caçando essas criaturas e se envolvendo em problemas maiores.


Nas mãos do Uwe Boll, o filme (conhecido por aqui como Em Nome do Rei, de 2007) conta a história do Rei Konreid, que precisa defender seu castelo e seu povo do diabólico Gallian, que quer derrubá-lo. Para isso, Gallian usa o exército de monstros guerreiros conhecidos como Krugs. Quando a vila de Farner, um simples fazendeiro, é atacada e dele ter seu filho assassinado e sua mulher sequestrada, ele parte em busca de sua esposa e de vingança.

Mais um daqueles trailers que deixam clara a qualidade duvidosa do filme!


Com atores como Jason Statham — já conhecido por alguns bons filmes de ação —, o veterano Ron Perlman, Ray Liotta e Leelee Sobieski — que fez alguns trabalhos de notoriedade, mas acabou esquecida —; o filme teve um orçamento de US$ 60 milhões! Mas acabou sendo mais um fiasco na carreira de Uwe Boll, arrecadando apenas US$ 13 milhões.


Mas esse fracasso não impediu Boll de dirigir duas sequências! Em Nome do Rei 2: Entre Dois Mundos, estrelando Dolph Lundgre (o eterno Ivan Drago); e Em Nome do Rei: A Última Missão, com Dominic Purcell.


Errar uma vez é humano, duas é burrica, mas três... é Uwe Boll! Mas será mesmo?

E finalmente, vamos para o último filme baseado em game do Boll nesta lista.


Far Cry



Far Cry teve seu primeiro título lançado em 2004 e foi desenvolvido pela Crytek. Hoje a Ubisoft, que já era a publisher do jogo, tem os direitos de desenvolvimento e publicação da franquia.


Basicamente, todos os jogos da franquia são games de ação e tiro em primeira pessoa; que consistem em realizar missões no intuito de sobreviver em lugares inusitados, ou em situações malucas e complexas. Mas aqui estamos falando de uma franquia de sucesso, com vários jogos e extremamente lucrativa para a Ubisoft. Porém... vamos ver logo do trailer do filme:


Jack Carver — pelo menos usaram o nome do protagonista do jogo — é designado para levar a jornalista Valerie Constantine a um encontro com um informante em uma ilha remota. Porém, tudo dá terrivelmente errado quando um míssil atinge o barco deles. Os dois conseguem escapar por pouco antes da explosão. Jack e Valerie fogem pela selva e são caçados por tropas mercenárias, enquanto tentam alcançar o outro lado da ilha para pegar um navio no porto. No entanto, eles descobrem um segredo do lugar: lá estão sendo realizados experimentos com seres humanos, conduzidos pelo Dr.º Krieger, para criar a máquina de matar perfeita.


Sim, a história do primeiro jogo é bem próxima disso aí. Mas o filme foi tão mal executado, que se você acessar o site Rotten Tomatoes, apenas 2 críticos se submeteram a falar sobre o filme e, logicamente, não foi algo positivo. Além disso, ele tem apenas 12% de aprovação dos usuários — algo que eu já acho impressionante.


Todos que avaliaram este filme são verdadeiros guerreiros!

Creio que posso dizer neste texto que este é o maior fracasso do Uwe Boll, como diretor, adaptando um game em filme. O filme teve um orçamento de US$ 30 milhões e arrecadou apenas US$ 743,6 mil!


Ainda bem que ele decidiu se aposentar como diretor! Mas, como prometido, vamos entender como ele conseguiu fazer tantos filmes, mesmo com tantos fracassos no currículo.


Uwe Boll, um louco ou um gênio?


Antes de tudo, é necessário entender como funciona a legislação fiscal alemã. Segundo ela, em uma tentativa de impulsionar o cinema, 100% do investimento em cinema pode ser deduzido dos impostos, desde que se investido em um diretor alemão e uma produtora alemã.


Ok, agora bora trabalhar a imaginação e os números...


Vamos imaginar que você investiu 10 milhões de chucrute coins no nosso amigão Uwe Boll, financiando 100% do filme e que, pelo acordo, você ficaria com 50% da receita geral do filme, certo? Agora vamos fingir o filme teve um retorno de 8 milhões (não esqueça que a receita de um filme não é só a bilheteria). Sendo assim, você fez uma burrice e tomou um prejuízo de 6 milhões, já que você tem direito a 50% do receita (50% de 8 milhões de chucrute coins dará 4 milhões; e 10 milhões de investimento, menos os 4 milhões que você ganhou, dará, em tese, o prejuízo de 6 milhões).


Será que isso foi merecido mesmo?

Enquanto isso, outros milionários riram de você, te chamaram de tonto, bobo e feio; e preferiram aplicar 10 milhões de chucrute coins em outras coisas aparentemente mais rentáveis; porque eles são pessoas sensatas. Mas aí vem a primeira parte da jogada: o imposto de renda na Alemanha é de 45% (dependendo da sua faixa de renda, mas estamos falando de milionários aqui; e lá o leão vai pra cima, com cargas tributárias pesadas em cima de grandes riquezas). Neste caso, vamos dizer que eles tiveram uma receita bruta de 15 milhões de chucrute coins. Esses 15 milhões ira sofrer 45% de tributação, que será de 6,75 milhões de chucrute conins! Então, 15 milhões menos 6,75 milhões... no final de contas eles investiram 10 milhões e só vão ficar com 8,25 milhões!


Voltando para o tonto que você foi...


Os 10 milhões que você investiu no Uwe Boll te renderam o prejuízo de 6 milhões; mas será mesmo? Agora vem a última parte da jogada! Lembra que você tem direito a 100% de dedução fiscal do investimento? Pois é, você investiu 10 milhões no filme e cumpriu todos os requisitos para ter 100% do investimento deduzido nos impostos. Como você é rico e tem muitos negócios, independente deste investimento, teria que pagar uma grande quantia de impostos; certamente passando dos 10 milhões.


Ou seja, prejuízo ZERO! Veja só: você vai deduzir os 10 milhões no seu imposto de renda, o que é bem alto e você teria que pagar uma quantia assim de qualquer jeito; mas você ganhou 4 milhões com o filme! E após a tributação de 45%, sobrará 2,2 milhões de chucrute coins para você gastar como quiser.


Resumindo: os 10 milhões que você usou para financiar o filme retornam completamente para você, abatendo em seu imposto e tu ainda saíste com 2,2 milhões de chucrute coins, já deduzido os impostos, para comprar aquele Nintendo Switch lindão e mais um monte de jogos.


E a agente aqui, achando que Uwe Boll era um maluco.

E é assim que ele sempre consegue alguém para financiar seus filmes. Então, até o próximo texto...


Ah! E se você tiver um amigo alemão milionário, troque uma ideia com ele, virem sócios e liguem para o Uwe Boll; ele saberá como investir uma grana para vocês!



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