O crash de 83 | Da quase extinção da Atari à ressurreição do mercado pela Nintendo

Atualizado: 3 de Set de 2019

Atualmente podemos dizer oficialmente que a receita da indústria dos video games já ultrapassou a do cinema. Pois é, algo impressionante e que ninguém imaginaria há alguns anos. Creio que podemos notar isso com os altos orçamentos investidos em jogos triple A e na participação de atores de peso nas dublagens e capturas de movimento.


Agora, vocês sabiam que a indústria dos games passou perto de quebrar de vez lá pela década de 80 e isso poderia refletir em como o mercado é hoje? E, além disso, que a Nintendo teve um papel importante para dar a volta por cima dessa crise?


Se ambas as respostas foram “não”, então senta aí que lá vem uma história legal sobre o famoso Crash de 83!


Só quero deixar claro: não estamos falando deste Crash, ok?

CONTEXTUALIZANDO O CENÁRIO


Vou logo dizendo que o Crash de 83 não foi o primeiro da indústria. Sim, em 1977 rolou um, mas que a saudosa Atari, com seu Atari 2600 teve um papel nessa virada.


Acredito que muitos devem ter tido o Atari 2600 como seu primeiro console, ou um de seus inúmeros clones nas terras do tupiniquim — no meu caso, tive um dos clones; o Dactar —; mas o primeiro console com cartuchos intercambiáveis — nome técnico e enfeitado para falar cartucho — foi o Odyssey, lançado em 1972.


O primeiro Odyssey. E até hoje não entendi qual é a desses controles aí!

Lá pelos anos 70, o game que predominava nos fliperamas era o Pong. Sim, aquele joguinho genial de dois palitinhos batendo em uma bola quadrada pro lado e pro outro. Será que foi de lá que Quico do Chaves tirou a bola quadrada?

E bem, basicamente o Odyssey era apenas um Pong na sua televisão e que você precisava pôr um papel celofane, que acompanhava os jogos, na tela da TV para simular um campo de futebol e outras coisas.


Para aqueles que não lembram, isso é Pong. E para a molecada de hoje: sim, isso pode ser chamado de video game.

E com a saturação de clones de Pong, o mercado estava perdendo força e indo mal das pernas. Mas a chegada do Atari 2600 mudou bastante as coisas e deu o gás necessário naquela época para manter o mercado vivo.


Atari 2600 já contava com uma paleta de cores maior e com um hardware mais parrudo para o que existia na época. Essas melhorias possibilitaram uma série de jogos diferentes em relação ao Odyssey. Porém, limitações técnicas e a falta de uma legislação sobre a produção de jogos causaram alguns problemas no futuro.


À esquerda temos o Atari 2600 e à direita, um de seus clones, o Dactar! (Estou colocando a mão no peito enquanto olho para o Dactar)

DO COMEÇO GLORIOSO AO DECLÍNIO


O Atari 2600 teve um grande boom de vendas e uma variedade enorme de jogos. Mas não existia uma regulamentação para produção destes jogos, fazendo assim que qualquer pessoa pudesse produzir um jogo e vendê-lo. E foi disso que uma empresa, que está até hoje na ativa, tirou vantagem e produziu a maior parte dos melhores jogos que podemos nos lembrar deste console: a Activision (atualmente pertencente à Blizzard).


Outro fato que vale ser mencionado é que a Activision foi fundado por um grupo de ex-funcionários da Atari, que se sentiram injustiçados ao perceberem que seus trabalhos renderam alguns milhões à empresa, mas que isso não refletia em seus salários. Outro fato relevante é que naquela época não era comum creditar programadores nos games, fazendo-os serem pessoas esquecidas e irrelevantes ao público.


Dois clássicos do Atari feitos pelas mãos da Activision!

Ao mesmo tempo, outras empresas recém-surgidas começaram a fazer jogos idênticos aos que já faziam sucesso, mudando apenas a aparência e saturando novamente o mercado. Além disso, essas mesmas empresas também produziam jogos de baixa qualidade, como o infame X-Man! E não, não estamos falando dos mutantes da Marvel. Aqui temos um cara nu, correndo atrás de uma mulher nua para... acho que vocês entenderam o resto. Vou nem pôr foto do jogo aqui para não dar problema. Caso tenham curiosidade, pesquisem no Google por X-man Atari (por conta e risco de vocês).


Outro problema que manteve a indústria caminhando em direção ao crash, foi o marketing feito nos games dos fliperamas que eram adaptados para o Atari. Um grande exemplo: Pac-Man. O marketing normalmente martelava a ideia que era como ter o fliperama — ou arcade, cada um fala como achar melhor — em sua casa. Mas, bem... não era exatamente isso que acontecia. A diferença entre as versões era gritante, fazendo muitos compradores pedirem seu dinheiro de volta. E, além disso, foram produzidas muitas unidades de cartuchos além da expectativa de venda, no caso de Pac-Man; dando um prejuízo enorme para a época.


À esquerda, a versão do fliperama; à direita superior a versão do Atari 2600; e no canto inferior esquerdo, todos que compraram a versão do Atari jurando que era igual ao fliperama.

Seguindo com uma série de polêmicas e um mercado saturado, a crise estava praticamente formada; e a indústria tinha apenas mais um pouco de fôlego para aguentar a situação. Mas então veio o último prego da tampa do caixão: o jogo do filme E.T..


Muitos culpam este jogo pelo crash. Mas, pelo que já expliquei aqui, notasse que o marcado já caminhava para isso. Porém, vamos ver o absurdo que aconteceu nesta época.


Dados não oficiais estipulam que a licença de uso de imagem custou cerca de 25 milhões de dólares! Algo absurdamente alto! E que a expectativa de venda dos cartuchos — dados já oficiais — era de 3,5 milhões de unidades, mas que só vendeu 1,5 milhões; e outros dados não oficiais dizem que foram produzidas mais de 5 milhões de unidades. Ou seja: um senhor prejuízo em um mercado já fragilizado. E sim, o jogo é ruim mesmo e foi notória a pressa na produção para que fosse lançado junto ao filme.


Quero conhecer o cidadão que olhou para isso e falou: “libera que tá da hora.".

Essa história foi tão icônica, que surgiu uma lenda de que o custo para manter os cartuchos encalhados num galpão alugado era tão alto, que a Atari preferiu enterrá-los em um buraco no deserto; e essa história circulou pelo mundo por anos.


Mas em 2014, um documentário chamado Atari: Game Over trouxe a lenda à vida! Este documentário contextualiza bem o crash de 83 e traz um grupo de trabalhadores escavando no deserto e achando alguns destes cartuchos enterrados. Há quem diga que foi só marketing e tem quem acredite. Mas independente de qualquer coisa, é uma história fantástica!


Imagem retirada do documentário Atari: Game Over. E aí, vocês acreditam? Não sei, mas sei que o documentário vale a pena assistir.

Ok, o jogo do E.T. não foi o culpado da crise, apenas o último prego do caixão, certo? Mas onde a Nintendo entra nisso para reerguer o mercado? Vamos prosseguir.


Enquanto tudo isso rolava no ocidente, a Nintendo já fazia sucesso com uma linha de jogos chamada Game & Watch (que podemos chamar de minigames), idealizada por Gunpei Yokoi — futuro criador do Game Boy e que terá um texto dedicado a ele no futuro —, lá no oriente.


Com o lançamento do seu console de mesa conhecido como NES, seu sucesso no oriente e a empresa percebendo todos estes problemas acontecendo na indústria ocidental; a Nintendo fechou parcerias para que seu console não fosse vendido como video game, para tirar a imagem ruim que o nome trazia na época; mas que fosse vendido nas seções de brinquedo. Além disso, ela deu uma remodelada no design do aparelho, ficando mais parecido com um vídeo cassete e passando a imagem de que era um aparelho para toda a família — NES: Nintendo Entertainment System.


O modelo oriental do NES e à direita o modelo americano. Nem deu pra notar a diferença! Uma curiosidade: o modelo japonês ficava muito amarelo com o passar do tempo, sendo apelidado de Iron Man.

Outra medida para evitar a saturação do mercado foi a criação de um selo de qualidade, que atestava que aquele jogo passou pelo aval da Nintendo, transmitindo segurança aos compradores. Além disso, mesmo para as grandes desenvolvedoras, a empresa limitou a 5 o número de jogos que elas podiam lançar por ano — o que não impediu a Konami de criar outras desenvolvedoras menores para lançar mais jogos — e também obrigava os desenvolvedores a comprar o cartucho base com ela. Sim! A Nintendo patenteou o cartucho, manufaturando e forçando todos a comprarem dela, caso quisessem desenvolver jogos para seus consoles — sim, ela lucrava duas vezes: uma com a venda do cartucho para a desenvolvedora e outra da parte da venda do jogo —; e, dessa forma, ela não perdia o controle sobre o que estava sedo lançado. Vale lembrar que ela levou essa política à frente por muitos anos em seus outros consoles.


Arte do Shigeru Miyamoto, um dos grandes nomes na época — e até hoje — da Nintendo. E sim, ele terá um dia um texto só dele.

E foi através desta postura que a Nintendo botou o mercado nos eixos e restaurou a indústria ocidental de video games. Mas nem tudo são flores! Pois justamente por forçar essa postura por tanto tempo que a empresa se queimou um pouco lá pelos anos 2000 em diante e perdeu muito espaço, vivendo altos e baixos, momentos de vendas astronômicas (Nintendo Wii e Nintendo DS) e outros momentos muito aquém do que era esperado pela empresa (Nintendo 64, Game Cube e Nintendo Wii U).


SÓ ALGUMAS CONSIDERAÇÕES DE UM FÃ PARA FINALIZAR


Este que vos escreve sempre foi fã da Nintendo. Mas aprendi a enxergar seus erros no percurso — justamente por continuar a consumir seus produtos — e tenho consciência que ela está meio atrasada em alguns aspectos para o que o mercado é atualmente; e, que mesmo com algumas falhas, ela lança um sucesso como o Nintendo Switch.


Porém, é indiscutível que se não fosse por esta empresa na década de 80 e 90, talvez o mundo dos videos games não fosse assim hoje! E é por isso que digo: independente de preferências, independente dos altos e baixos; todos que amam video games devem respeitar a Nintendo, vulgo Big N!


E quanto aos clones do Atari e do NES no Brasil? Eles tiveram algum impacto? Bem, isso será assunto de um próximo texto...



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