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Michael | Crítica sem Spoilers

  • há 18 horas
  • 4 min de leitura

Michael cai na armadilha da maioria das cinebiografias: focar a história de um grande artista em uma história adjacente.


Em um primeiro momento, gostaria de dizer que, lógico, não é um filme ruim — não passa nem perto disso. A Universal sabe produzir, uma vez que não estamos falando de um estúdio pequeno, mas sim de um estúdio enorme, com grande poder aquisitivo e que pôde deixar bem claro como é diferente quando temos algo assim por trás dessas grandes produções. A exemplo disso temos os momentos em que grandes sucessos são revividos em cena e podemos ver uma reprodução quase 100% fiel do que foi. E me questiono: se fosse um estúdio menor, conseguiria dar vida a essa história tão grandiosa?


E lógico, não posso de forma alguma destacar as coisas boas de Michael, sem elogiar infinitamente as atuações desse longa que foram dignas de um filme que retrata a vida do “Rei do Pop”.



Jaafar Jackson tomou para si a responsabilidade de representar uma das figuras artísticas mais importantes do mundo e entregou com destreza, porque muitas pessoas performan Michael Jackson, mas ser Michael a ponto de você fechar os olhos e lembrar de entrevistas e conteúdos reais…é de se tirar o chapéu. Ainda está longe de ser uma atuação de Oscar, mas ele cumpre seu papel e entrega muito bem — o andar, o agir, o respirar. Para quem é fã, isso ficou muito bem construído.


Outra atuação que merece destaque é a de Juliano Krue Valdi que dá a vida a Michael em sua versão criança. Ele se entrega, vive o Michael em sua pura essência e transmite uma emoção muito forte. E confesso que me emocionou logo no começo do filme quando fez a introdução de Who's loving you, entregando uma performance memorável.



Mas é no enredo que o filme se perde.


Particularmente, não gosto de histórias que resumem a vida de uma pessoa pública a um trauma. E é lógico: o trauma da infância do Michael Jackson, especialmente no período do Jackson 5, foi extremamente marcante e moldou quem ele se tornou. E quem é fã já sabia que isso estaria no filme.


Mas esperava ver muito mais de Michael.


Nos minutos finais é possível entender porque a história gira tanto em torno disso — até porque constrói o gancho para a continuação. Porém, existiam outras formas de se abordar focando mais no personagem principal e menos nas histórias ao redor.

A impressão que dá é que o Michael não é o protagonista do próprio filme.



Um dos melhores momentos do filme, foi a criação de Beat It — a forma como ele pensou, como estruturou, como trouxe narrativa. Aquilo foi incrível. E deveria ter existido mais momentos assim ao longo do filme inteiro, não apenas aquele.


Era importante contar a história da família? Era. Mostrar o que ele sofreu? Também. Mas isso precisava ser a história coadjuvante, não a principal.


Quando você pega um artista no nível do Michael Jackson — que, pra mim, não tem ninguém que se compare — e no próprio filme dele ele parece um coadjuvante, tem alguma coisa errada.



Eu entendo por que isso foi feito. Provavelmente existe um apadrinhamento da família, o que faz com que algumas coisas sejam mostradas de forma diferente, outras nem apareçam. Toda adaptação passa por mudanças.

Mas também tem o fato de que estamos falando de uma figura cercada de polêmicas. E talvez esse receio de abordar isso tenha feito o filme se tornar mais contido do que deveria.


Confesso que, quando o filme foi anunciado, já tinha um certo receio. Como alguém que consome muitas adaptações e é fã do artista, sempre fico com um pé atrás sobre o que a liberdade artística pode fazer com uma história dessas.


E também tem o recorte temporal: o filme pega basicamente os primeiros 20 anos de carreira. Então, naturalmente, muita coisa fica de fora — inclusive várias das grandes polêmicas que viriam depois.


Isso explica uma sensação constante durante o filme: ao mesmo tempo em que tudo passa muito rápido, parece que a gente não chega a lugar nenhum.


E deve-se ao fato de que claramente é um filme pensado para ter continuação.

Então, no geral, não acho que seja um filme ruim — nem perto disso. É um filme ok, com uma boa história, sobre um artista gigantesco. Ele entrega o que se propõe.

E, por fim, um ponto importante: o filme não consegue transmitir o Michael Jackson como uma pessoa humana.


A gente vê que ele se importava com causas sociais, com o meio ambiente, com crianças — isso está lá. Mas a gente não sente essa humanidade, porque ela não é construída. São só pinceladas.


O filme parece querer que a gente construa o personagem na nossa cabeça a partir desses fragmentos, mas isso não é suficiente.


E isso me lembra muito a construção de personagens como o Superman: quando você tem alguém extremamente grandioso, ele precisa ser humanizado, senão o público não cria conexão.


Aqui acontece o mesmo.


O filme mostra um artista gigantesco — talvez o maior de todos os tempos —, mas não mostra por que ele é isso.


E essa falta de construção emocional impede o público de criar apego.

Porque, no fim, a sensação que fica é: eu sei quem é o Michael Jackson porque eu sou fã. Mas se eu fosse conhecer ele só por esse filme, eu não entenderia por que ele é tudo o que é.



Por outro lado, considerando que é um primeiro filme e que teremos continuação, e vendo o nível de atuação, fotografia, maquiagem e produção, dá pra ter esperança de que o próximo corrija esses pontos.


Até porque provavelmente haverá um salto temporal na produção, e isso pode ajudar a desenvolver melhor o personagem.


Mas ainda fica um receio: até que ponto a produção vai ter liberdade? O que vai ser permitido mostrar? O que não vai?


Fica o questionamento.


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