Mestres do Universo | Crítica sem Spoilers
- há 11 minutos
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Grande sucesso nos anos 80 e famosa por seus heróis e vilões de proporções absurdas com nomes ainda mais absurdos, a franquia se tornou um fenômeno cultural graças à sua linha de brinquedos e à série animada que a acompanhava, um desenho animado tão viciante que pareceia ter um poder de atração quase sobrenatural sobre crianças do mundo todo. A adaptação anterior para o cinema foi um fracasso retumbante, apesar de ter permitido que o então astro Dolph Lundgren vestisse sua tanga e proferisse as imortais palavras: "Pelos poderes de Grayskull...". Desde então, Eternia passou décadas vagando pelo deserto cinematográfico, sobrevivendo apenas por meio de roteiros abortados, produções canceladas e falsos começos.
Agora, após anos de desenvolvimento conturbado, Travis Knight, que já demonstrou talento para reviver a essência dos blockbusters clássicos através de propriedades de brinquedos adoradas como Bumblebee, finalmente tem sua chance.

O Longa começa contando e resumindo história de Etérnia. Vemos um distante mundo fantástico, onde o pequeno príncipe Adam luta para corresponder às expectativas de seu severo pai, o Rei Randor. Quando Esqueleto lança um ataque brutal contra Eternos, o Rei cai e Adam é "lançado" para longe pela guardiã do antigo poder do Castelo de Grayskull. A Espada do Poder, que contém a própria essência do planeta, se torna o seu único caminho de volta para casa.
Mas como todo bom artifício de roteiro, a Espada do Poder acaba se perdendo durante a jornada se separando de Adam.
Preso na Terra, Adam passa os próximos quinze anos enfrentando os horrores da vida adulta: encontros amorosos, departamentos de recursos humanos e vasculhando sites de leilão na internet em busca de um artefato mágico que todos acreditam ser parte de uma elaborada ilusão. Mas quando a espada ressurge inesperadamente, Adam finalmente tem a chance de voltar para casa e reivindicar seu destino…

Bom, o filme de Travis Knight não apenas lembra os blockbusters clássicos dos anos 80 e 90, parece até que ele viajou para o futuro, saindo lá de 1986 e vindo fazer um filme aqui em 2026. Há ocasionais acenos à sensibilidade dos blockbusters contemporâneos, principalmente uma profusão de humor sarcástico que, cada vez mais, parece um truque que só Robert Downey Jr. consegue executar com maestria. No entanto, em quase todos os outros aspectos, este é um filme cuja essência pertence firmemente ao passado. E felizmente é exatamente isso que faz o longa funcionar.
...um filme cuja essência e alma pertencem firmemente ao passado...
Este é um filme de entretenimento frenético que aborda até os aspectos mais absurdos da mitologia com o entusiasmo sincero de uma criança brincando de bater os seus action figures no tapete da sala. Não há qualquer desejo de desconstruir o material original (ainda bem), nenhuma tentativa de explorar a escuridão no âmago da condição humana ou de proferir um sermão sobre a sociedade contemporânea. Este é um filme sobre um jovem príncipe que teve fabulosos poderes secretos revelados a ele no dia em que ergueu sua espada mágica e disse "pelos poderes de Grayskull", o transformando instantaneamente em um herói bárbaro musculoso, usando um mullet, uma tanga e o poder mágico de um planeta inteiro.
É inerentemente ridículo.
É extremamente exagerado.
E é totalmente sincero.

Essa sinceridade se mostra contagiante. Há ecos óbvios de Thor: Ragnarok, Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes e, talvez o mais significativo, do imortal Flash Gordon de Mike Hodges . Assim como esses filmes, Mestres do Universo entende que humor e espetáculo não são forças opostas, mas complementares. Mais um grande acerto do diretor, para a nossa alegria!
O elenco está totalmente comprometido com o projeto. Nicholas Galitzine está hilário como Adam, igualmente convincente como o nerd solitário de histórias em quadrinhos e como o herói de ação imponente capaz de pegar discos voadores com lâminas afiadas com as próprias mãos. Ele tem a aparência, a voz e, crucialmente, entende o tom perfeitamente.

O apoio e suporte de Camila Mendes como Teela, Idris Elba como o Mentor e Alison Brie como a gloriosamente melodramática Maligna é igualmente forte, mas a arma secreta e principal destaque do filme é, surpreendentemente, o Esqueleto de Jared Leto. Me surpreendeu bastante! A atuação física é impressionante, combinando maquiagem e figurino práticos com aprimoramentos digitais, mas é a voz que realmente eleva o personagem, principalmente na versão dublada na voz de Carlos Persy. Sim fica aqui um adendo, assista este filme dublado! Vai canalizar sua criança que ficou lá nos anos 80 e 90, e a direção de dublagem além da adaptação dos textos estão sensacionais! Além disso, Garcia Júnior outro nome de peso da dublagem brasileira, após 20 anos voltou a dublar o He-Man. As vozes no original em inglês estão ótimas, sim são os atores ali entregando tudo que podem, mas se você viveu e teve sua infância assistindo He-Man recomendo fortemente que assista a versão dublada, é diferenciada e excelente!
Voltando ao Jared Leto, ele entrega uma atuação de vilão incrivelmente maximalista e a amplifica ainda mais. É absurdo, extremamente teatral e simplesmente muito divertido. Um grande detalhe em uma das cenas do esqueleto, foi a alfinetada nos filmes hollywoodianos atuais, onde todo vilão só faz coisas ruins porque ele "precisa justificar alguma coisa" para o mal que faz, como o Thanos por exemplo... Aqui não! Esqueleto protagoniza uma fala maravilhosa, em uma tentativa de diálogo do He-man para que o feiticeiro do mal se arrependa e deixe a maldade de lado. A resposta é excelente, "Nada do que você me disser vai me mudar, eu sou um vilão e gosto disso!". Nossa! A sessão aplaudiu nesse momento. Obrigado Travis Knight!

Essa mesma energia permeia todos os aspectos da produção. A trilha sonora de Daniel Pemberton muitas vezes soa como ABBA tocando Nightwish, enquanto Brian May contribui com solos de guitarra intermináveis que fazem nossos ouvidos sangrarem e nossos dedos coçarem para participar. O diretor de arte Guy Hendrix Dyas transforma Eternia em uma fusão gloriosa de ficção científica retrofuturista e a arte de Frank Frazetta. Além disso, todas as cenas de luta estão impecáveis e super bem coreografadas, mais um ponto positivo para o filme do Campeão de Eternia.
Se há problemas aqui, eles são pequenos demais para diminuir a diversão. O primeiro ato talvez passe tempo demais na Terra antes de mergulhar de cabeça na loucura colorida de Eternia e algumas piadas poderiam ser usadas com mais moderação. Ainda assim, são observações menores diante de um filme que entende perfeitamente o que é, abraça suas raízes sem vergonha alguma e entrega exatamente a aventura fantástica que os fãs esperaram por décadas.

As participações especiais e as referências soam afetuosas em vez de cínicas, o espetáculo é consistentemente divertido e a sensação de imaginação infantil permanece em primeiro plano do início ao fim. Quando Justin Hawkins e companhia entram nos créditos finais celebrando todo o absurdo glorioso que acabamos de assistir com a trilha sonora clássica do desenho, a sensação é de missão cumprida.
Mestres do Universo é bobo, exagerado e totalmente desprovido de pretensão. Mas por trás de tudo isso, esconde-se um filme feito com carinho genuíno e entusiasmo contagiante. É o cartoon dos anos 80 ganhando vida na tela! Emociona, diverte e vale a pipoca. Travis Knight realizou o impossível: transformou um dos brinquedos mais importantes dos anos 80 em um blockbuster moderno sem sacrificar sua alma. Mestres do Universo é exatamente o que deveria ser: uma aventura grandiosa, sincera, divertida e orgulhosamente exagerada.


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