Gambiarras do SUBMARINO do TITANIC | Um controle de videogame?
Conseguiria se sentir seguro sabendo que depende de um controle de videogame para se locomover?

O gamer às vezes é meio Ronaldinho Gaúcho, e cai em uns rolês aleatórios. A viagem da vez é o Titan, um submarino utilizado por uma empresa privada, a OceanGate, para missões submarinas em baixíssimas profundidades.
Os games caem nessa roubada porque, entre as coisas que chamaram a atenção da galera no tal submarino, estava um singelo controle. Mais especificamente, o Logitech F710. O que um controle doméstico, um modelo antigo e de custo relativamente baixo, estava fazendo nesse rolo?
O submarino Titan
O rolo começa com o Titan, o modelo de submarino de altíssima profundidade, capaz de chegar a até quatro mil metros de profundidade, fabricado pela OceanGate. Ele é usado em missões nessas situações extremas, quando a pressão é 400 vezes maior que a da atmosfera ao nível do mar. Isso é 100 vezes mais fundo do que o limite indicado de um mergulho recreacional, e a partir dos 50 metros você já corre o risco de ter um colapso dos pulmões.
Pra quem tiver interesse, tem bastante vídeo de caranguejo colapsando por causa da alta pressão no mar, um conteúdo que vocês têm a oportunidade de, gratuitamente, não ver. É uma adição que você pode não fazer pra sua vida.
Os usos do Titan são variados, desde exploração e pesquisa em altas profundidades, produção cinematográfica e, no caso do incidente que estamos falando, ele estava sendo usado para um passeio aos destroços do Titanic, localizado a 3.800 metros de profundidade.

A OceanGate se vangloria que o submarino é inovador ao trazer novas tecnologias que o tornam extremamente resistente e, ao mesmo tempo, tem uma redução de custo grande graças ao uso de produtos disponíveis em qualquer mercado comum. E é aí que entra o controle da Logitech.
Parte do submarino usa tecnologia avançada, como é o caso do casco feito em fibra de carbono e titânio, que garante resistência e ao mesmo tempo um peso mais leve, combinado com a tecnologia Real Time Hull Health Monitoring (RTM), que de acordo com a OceanGate, traz um monitoramento bastante preciso do estado do casco.
Como o controle foi parar no submarino
Mas na outra parte do submersível, as coisas não são tão avançadas e nem tem um nome e uma sigla pedante. A expressão que está no site oficial do submarino é a “off the shelf”, algo que se traduz como “saído da prateleira, ou saído da gondola”. Acho que a melhor forma de definir isso em português seria um “peguei no mercadinho”. Isso quer dizer que o submarino usa produtos comuns do comércio, o que reduz custo, facilita a substituição de componentes, afinal tem no mercadinho da esquina, e isso inclui, é claro, um controle de videogame como comando do submarino.
Aqui surge o Logitech F170. Esse controle sem fio é um modelo até antigo, já faz 12 anos que está no mercado, e diferente do que o próprio CEO da empresa OceanGate descreve, ele não é um modelo bluetooth, e sim usa a frequência de 2.4GHz e um receptor USB para operar.

É uma boa opção de controle, bastante versátil, funciona bem com diversos sistemas operacionais, pode ser configurado para dar comandos como teclado e mouse e tem suporte tanto a tecnologia XInput / DirectInput.
Ele é um controle de custo acessível, considerando que é sem fio. É encontrado no Brasil por R$ 320. Ele está com classificação 4.8 estrelas em 40 avaliações em uma oferta no Mercado Livre, o que inclui um depoimento que diz:
…resistente, impecável, obrigado estou muito feliz com a compra ??????
Comentarista médio de internet, 2023

Inclusive, fica aqui o nosso compadecimento ao dono desta oferta, que está tendo que sobreviver a uma enxurrada de piadas de mal gosto nas perguntas, e que está com a frase “Estamos denunciando ao Mercado Livre e eles estão avaliando o banimento permanente da conta de todos os usuários que estão usando esse campo para comentar sobre qualquer coisa relacionada ao incidente” de prontidão no CTRL+V do seu PC.
Pelo vídeo, a única mudança no controle é que ele parece ter recebido uma pequena adaptação. Os analógicos foram alterados para parecer mais um manete, em um acabamento que parece até feito em impressora 3D.
Usar um controle de videogame é um problema? É uma economia boba colocar um submarino a 4 mil metros no fundo do mar controlado pelo mesmo dispositivo que você nem consegue usar pra se equilibrar em uma plataforma no Fall Guys?
Controle de videogame serve?
Aí você pode fazer esse questionamento para uma das organizações com mais dinheiro no mundo. A Marinha Americana usa controle de Xbox 360 para operar periscópios, algo que a gente noticiou lá em 2017.
O periscópio era controlado por manche parecido com o de um helicóptero, mas após pesquisas realizadas por engenheiros da marinha, veio a ideia de substituir o sistema pelo controle do videogame da Microsoft, que traz comandos mais simples e é mais barato que a solução anterior.
O sistema de controle anterior funcionava apenas em submarinos específicos da marinha americana e custava cerca de US$ 38 mil. Os joysticks de Xbox utilizados agora são os mesmos que os jogadores convencionais usam, ou seja, custam em torno de US$ 30.
E não são só os americanos. Britânicos tem um quadriciclo e os Israelenses tem um tanque controlado pelo periférico da Microsoft.
E até quando não são diretamente um controle de videogame, não é raro encontrar algumas interfaces muito familiares em alguns dos comandos de equipamentos de combate.
A então culpa é do controle de videogame?
Então o Logitech “tá safe”? Mais ou menos. Considerando o quanto a função desse controle é crítica, não sou muito fã do uso de um dispositivo sem fio. Volta e meia nossos periféricos dão uma enlouquecida aqui no Adrena, com vários deles usando justamente a tecnología 2.4GHz para operar e sofrendo com interferências, por exemplo.
Como o Titan tem 6,7 metros de comprimento, creio que é pouco provável que o controle tenha falhado, mas nunca dá pra descartar 100% a possibilidade de isto ter acontecido. E mesmo que seja o caso, o próprio CEO menciona em um vídeo que eles carregam mais controles sobressalentes. E isso, na realidade, traz para o que tem muito mais a ver com o problema do que um periférico de baixo custo da Logitech, ou mesmo a opção de usar produtos off the shelf.
Especialistas já estimaram as chances de sucesso do resgate dos tripulantes da Titan e, sendo realista, elas são quase nulas. O custo financeiro que muita gente vai pagar indiretamente, e o risco que outras pessoas vão se expor na tentativa desse resgate também é um tópico que vai levantar discussão acalorada em breve. O que podemos cravar é que, com certeza, a culpa não é do controle. Porque mesmo que seja, a falha começou antes dele, quando não foi planejado alguma redundância ou alternativa para uma eventual falha do simpático comando sem fio da Logitech.
É preciso respeitar o mar. As condições que o Titan encara são extremas, e precisam seguir as mesmas cautelas que temos com outros extremos, como a aviação civil. Aviões modernos são cheios de redundâncias em seus equipamentos principais, seguem protocolos extremamente organizados e são altamente testados e regulados.
Não que o Titan não seguisse as regulações das autoridades. Ele segue todas, já que não há nenhuma. E inclusive ignorou até mesmo relatórios de segurança alertando sobre a insegurança do submarino.
Fonte Adrenaline

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