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A História do Som | Crítica sem spoilers

  • há 4 horas
  • 6 min de leitura

Chegando sem fazer muito barulho, A História do Som tem estreia oficial nos cinemas brasileiros neste final de Fevereiro. Já irei adiantar boa parte do texto dessa crítica, o filme talvez não chegue a agradar muitos, porém acredito acertar exatamente no público-alvo que foi feito a campanha de divulgação deste filme, quem gosta de filmes mais ousados, diferentes ou até com "vibe cinéfilo", apesar de não gostar da utilização desses termos, mas de fato é um filme com uma pegada mais devagar, mas sem ser arrastado.

Vamos contextualizar um pouco, apesar dessa crítica ser feita sem spoilers, acredito que vale a pena conferir o trailer para talvez captar a essência do que vou falar aqui, assim como do que o filme retrata. Vamos acompanhar o personagem de Paul Mescal e Josh O'Connor e o desenrolar de uma observação, do ponto de vista de Mescal, do impacto da cultura na influência da construção musical ao longo de diferentes comunidades...



Inicialmente achei que seria um filme um tanto quanto enrolado, mas fiquei surpreso ao estar de fato imerso dentro da realidade que o filme se passa. Pense bem: hoje vivemos num mundo extremamente dinâmico, e ao adentrar ao filme voltamos a uma realidade interiorana americana nos anos 1900. As dinâmicas são mais devagares, a realidade é mais devagar, o pensamento, a conversa, perspectiva de futuro, sonhos, medos... todas essas dinâmicas sociais são consideravelmente diferentes ao que vivemos hoje. Logo, estamos vivendo trechos da vida de Lionel e sua relação com o mundo, porém a história começa a desenrolar com a chegada de David como que por uma coincidência do destino, e a partir dali começa a relação entre eles. Nessa parte não me oponho, parece um romance simples, porém a diferença é o contexto pelo qual essa relação vem sendo construída, principalmente pelo momento em que se passa a história.


Sabemos que o relacionamento de gays não poderia ser exposto em público, tendo somente seus momentos em tela em momentos mais íntimos, o que é interessante no filme é que, apesar de toda problemática, não há uma necessidade de mostrar o quão problemático é essa questão, porém como fruto do momento histórico, essa era a realidade. A história não fica insistentemente batendo nesse ponto, o relacionamento segue, sem aparição, mas segue em silêncio disfarçado de conversas e ações.



Este texto é sem spoilers, mas essa breve observação é pertinente quando estamos conversando sobre essa obra, inclusive com comparações que surgem com O Segredo de Brokeback Mountain. Enfim, voltando ao assunto, a dinâmica entre Lionel e David, sendo respectivamente Paul Mescal e Josh O'Connor, é maravilhosa. Nisso incluo a atuação de ambos, tanto contracenando, como em cenas diferentes, especialmente Lionel. No início do filme achei sua interpretação um tanto quanto forçada, mas a cada cena que passa, a sinceridade e proximidade que vemos do ator sob o personagem é tão natural que é difícil não gostar, inclusive até sendo como âncora de representação do crescimento.


Dúvidas ao crescer, dúvidas sobre o que devo fazer, o que quero me tornar, para onde vou, com quem vou. Lembrando, vemos Lionel em diferentes momentos de sua vida, logo estamos entrelaçados em diversas "viradas de chave" na vida do personagem, afinal a vida é isso, dúvidas e tomadas de ação. O que fazemos hoje, o que fazemos amanhã, e para onde esses passos nos levam, ou até pela possibilidade de retroceder. Não há fórmula correta, estamos aqui e agora, vivendo, pensando, tomando decisões, voltando atrás? Talvez, mas estamos sempre avançando. Para onde? Às vezes sabemos, às vezes não, e mesmo que retrocedamos, o eu de agora não é o mesmo que não tomou aquela decisão. Temos mais experiência, boas ou ruins, que fazem parte da nossa história. É quase um exercício de "o que poderia acontecer se eu escolhesse x a y", até sendo uma das conversas em um momento do filme. Enfim, essa é uma reflexão que vem pouco a pouco crescendo dentro do roteiro do filme. É uma brincadeira que nos leva a pensar e pensar e no fim não há resposta certa, há um mundo de possibilidades que estão constantemente entrando em conflito e que alguma realidade vai existir. Pode não ser a que queremos, mas existirá.


Enfim, era para falar dos atores, mas, honestamente, nenhum do elenco fez desfalque, nisso pode incluir Emma Canning, Chris Cooper, Hadley Robinson, Briana Middleton, enfim, estamos bem acompanhados nessa história.



Não há mistério que este é um filme musical (se você leu o título já percebeu), mas vale o comentário de que iremos acompanhar principalmente músicas intrinsecamente ligadas às raízes de cada comunidade. Talvez o melhor enquadramento que podemos dar aqui seria folk? Porém o que não há o que discutir é o impacto da realidade dos indivíduos de cada comunidade sob o fruto da produção cultural que essas sociedades emanam, especialmente num mundo que não vivia extremamente conectado. Ou seja, por mais que algumas comunidades sejam próximas, cada uma tem suas vivências que diferem e são refletidas em seus anseios e obrigações dia a dia. A música não é somente um elemento de entretenimento. É... porém é mais. Ela é um reflexo das percepções, sejam elas boas ou ruins, daquele povo, por isso estão tão ligadas às raízes de quem vive ali. A música, nesse cenário, é um elemento de estudo dentro da sociologia e do porquê da importância dessas tradições que, inclusive, são tradições orais. Então, musicalmente falando, a obra te coloca exatamente onde ela quer que você esteja. Falo isso adicionando que, de fato, não sou fã de musicais, mas a incorporação e a importância social e cultural das músicas dentro desse cenário me fizeram mudar de opinião neste filme.



Outro ponto que vale ressaltar, mesmo já tendo falado anteriormente, é o ritmo do filme. Não vá achando que as 2 horas e 9 minutos de filme vão ser rápidas, o filme é devagar, mas veja bem, ele não é arrastado. Perceba aqui a sutileza, as coisas acontecem, porém dentro daquela realidade, logo, pausas grandes entre falas, grandes momentos de exposição sem falas. O filme é belo, com a estética que nada nos é novo, tendo cores semelhantes a outras obras de época, porém o filme, assim como as pequenas atuações, é tão singelo, tão cuidadoso. Mesmo em cenas de plano aberto, ou planos em locais mais fechados, sempre nós nos sentimos lá, dentro da cena. A filmagem é quase que crua, com longos momentos de silêncio, afinal, aqui, o som tem que fazer sentido, e se naquela cena não fizer, por que colocar? E se colocar, o que ele quer dizer com isso ou como nos sentimos quanto a isso? Simples, funcional, bem feito e bem editado, como precisamos nesse tipo de obra.



A História do Som chegou devagar no cinema e não vai atrair um grande público, então não espere esse filme sendo compartilhado ou aparecendo na sua timeline, talvez até ficando restrito a um público mais entusiasta em cinema. Porém, se você gosta de um bom filme de romance, drama ou até de época, acredito que seja muito difícil não gostar, tendo como empecilho somente essa questão da dinâmica um pouco mais devagar. Vou adicionar, mas podendo estar errado, esse filme é uma reflexão do impacto dos costumes sociais na produção de sentido dentro de obras artísticas culturais e que, por ventura, tem um bom relacionamento no meio que serve como gasolina para essa locomotiva.



Num mundo que não está cada vez mais dinâmico, mas está atropelando qualquer um que não queira ou que não esteja acompanhando o ritmo, este filme é, pelo menos para mim, um lembrete de que o que é importante já era resolvido com essa calma, devagar, no passado. Talvez não na velocidade que quem viveu gostaria, mas, apesar disso, a vida continuava. E mesmo hoje, apesar de todos os problemas, estamos aqui vivendo dia após dia. São outros tempos, outras relações e dinâmicas, mas seguimos resolvendo o que nos cabe da forma que conseguimos. No fim, apesar de toda essa velocidade, nossas tomadas de decisão continuam sendo o nosso verdadeiro ponto de partida. Para onde? Não sei, mas estamos indo. E se, porventura, tivermos que retornar, retornaremos. Afinal, não do mesmo jeito que éramos, nem talvez com as mesmas possibilidades, mas como tomadores de decisão, nós temos o poder de decidir nosso ponto de partida rumo ao incerto.




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